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Tênue




Parte Final


O Dr. Alvarez garantiu que estava tudo bem com Laís e que nada a impedia de ter quantos filhos quisesse. Laís só pode concluir que o problema estava com Renato, que claro, ficou revoltado.

― Aquele velho está senil!

― Renato! – ela o repreendeu e fechou a porta do quarto para que os empregados não escutassem. – Por favor!

― Por favor, digo eu! Você quem não engravida e eu que sou o culpado?! Claro que pra você é conveniente, não é, Laís?! Um absurdo! – ele acendeu um cigarro.

― Renato, já pedi para que você não fume no nosso quarto. Aliás, não fume em lugar nenhum. Você, como médico, deveria saber que isso faz mal e...

― Ah e você, como mulher e esposa deveria saber que não preciso dos seus conselhos! A única coisa que te pedi nesse casamento foi um filho e até agora nada! Eu tenho sido paciente, Laís, porque gosto de você, porque sei que é uma menina que foi criada com todos os mimos, que precisa de um tempo, mas agora cansei! – ele soltou uma baforada e abriu a janela diante da cara feia dela. – Eu fiz tudo o que você queria. Vim morar numa cidade desconhecida, saí da minha terra natal, larguei amigos, pai, mãe, uma vida toda, tá?! Por você! Aceito até que seu pai pague esse bando de empregados pra que você não faça esforços já que eles acreditam que você é de porcelana! – ele lhe deu um olhar debochado, que a magoou. – Mas não aceito que você me acuse de algo que não consegue! A única coisa que você precisava fazer era engravidar! Só isso! Mas não, quer estudar, quer fazer isso e aquilo! Sabe o que eu acho? Que você pode estar dando um jeito de evitar um filho porque sempre foi preocupada com sua forma física, claro que não vai querer engordar, vive comendo salada e tudo quanto é coisa sem graça pra ficar magra feito um espeto!

― Chega! – ela gritou e colocou as mãos nos ouvidos, tampando-os. – Para! Olha as coisas que você está me dizendo! Me acusando de inverdades! Sim, eu penso na minha forma física, assim como você, que me disse que odiaria que eu ficasse gorda, lembra?

― Sim, mas você voltaria à forma depois que tivesse o filho, mas você não quer, esse é o problema, Laís! Só esse!

―  Não é que eu não quero, eu não consigo! Fiz até simpatias e nada! ― suspirou, sentindo–se cansada daquelas intermináveis discussões.–Custa você fazer um exame pra ver se não tem algo de errado no seu organismo, sei lá, não entendo dessas coisas, mas... Algo está te impedindo de me engravidar!

― Nada me impede disso. – ele afirmou e apagou o cigarro. – É vergonhoso, Laís. Vergonhoso.― falou, magoado.

-x-

Dois anos se passaram e o mesmo drama continuava. Laís não engravidava e quase se convencia de que o problema era consigo mesma. O filho nunca viria, ela pensava.

Chegou em casa com sacolas de compras, subiu a escada até o quarto e viu Renato arrumando as malas.

― Renato? Você vai viajar? Não me falou nada.

― Eu ia te deixar essa carta. – ele lhe deu um envelope branco. – Está tudo explicado aí. Não posso continuar aqui, Laís. Eu te amei muito, mas claramente isso não deu certo. Estou indo embora. Vou morar com uma... amiga.

― Amiga? Ou amante? – ela o questionou. – Eu sei das suas escapadas. Só finjo que não sei. É o que minha mãe sempre me aconselha, mas acho que está na hora de parar de dar ouvidos à ela.

― A culpa é sua, Laís. Nós poderíamos ter sido felizes. Eu me esforcei muito. Eu abri mão de mim mesmo por sua causa. Agora chega. Sinto muito que termine assim. Poderia ter sido diferente. – ele lamentou e suspirou. – Adeus.

Renato saiu com a mala na mão e Laís nem ao menos conseguiu esboçar uma reação. Era-lhe surreal aquilo. Sua mãe ficaria escandalizada se Renato pedisse o divórcio, o que lhe parecia o óbvio. Seria a primeira mulher divorciada da família. Laís abriu o envelope e teve vontade de chorar, mas depois desistiu e apenas jogou a carta janela afora. Se Renato queria se livrar dela, ela também merecia ser livre. Aquele casamento já estava claramente fracassado. Talvez fosse melhor assim, mesmo que doloroso.

-x-

Foi um escândalo como Laís previra. Os pais aconselharam Laís a procurar Renato e pedir-lhe pra voltar, mas ela não queria passar por mais essa humilhação.

― Humilhação? ― repetiu irritada a mãe de Laís. ― Salvar o seu casamento agora é uma humilhação, filha? Coloque a mão na consciência! Uma mulher sábia edifica a sua casa, está na Bíblia! A tola destrói! E você está sendo tola! Perder um marido distinto, de boa família, médico conceituado...! 

― Ele não me quer mais, mãe. Tem uma amante e foi viver com ela. ― Laís disse, se sentindo derrotada.

― Amante, amante... ― a mulher falou com desprezo. ― Amantes vem e vão... Pensa que seu pai não teve as dele? Teve! Mas ficou em casa! A família vem em primeiro lugar! Uma mulher passa por todo tipo de barreira pra manter o casamento.

― Só que eu já abri exceções demais. Me fiz de cega, surda e muda. Chega. E não quero mais discutir isso. 

E nem demorou muito para que Renato pedisse o divórcio e se casasse com a amante – agora esposa – já grávida. A mulher ostentava a barriga pela cidade como um troféu e Laís ficou cansada disso. Vendeu a casa e resolveu sair do Sul.

― O quê?! – os pais exclamaram, boquiabertos.

― Isso mesmo. Está na hora de enfrentar o mundo. Vou para São Paulo. Uma amiga minha de faculdade agora mora lá. O escritório do tio dela está precisando de uma secretária e então parto amanhã. Resolvi avisar em cima da hora para que vocês não pudessem me impedir.

― Laís, isso é um absurdo! Além de divorciada, vai virar secretária?! – a mãe estava revoltada. – Se você tivesse engravidado nada disso teria acontecido...

― Mas não engravidei. Acontece. E sinceramente, um filho não é mais prioridade na minha vida. Eu virei a minha própria prioridade. Chega de viver em função de alguém. Vou pensar em mim.

― Você quer algum dinheiro? – perguntou o pai, já conformado, embora desiludido.

― Você vai dar corda pra isso?! – a mãe exclamou, contrariada.

― Ela já é adulta. Não posso impedi-la.

― Não preciso de nada. Obrigada, pai. – Laís sorriu e o abraçou. – A venda da casa e das joias que o Renato me deu me deram um bom calço. Não devolvi nenhuma peça pra evitar que o ordinário desse pra vadia que chama de esposa. – disse, irritada. – Me traiu por anos com ela. Que se danem os dois. – bufou. – Minha vida começa agora.  – sorriu, confiante.

― Vá com Deus, filha. – o pai beijou sua cabeça.

― Obrigada, pai.- ela sorriu e olhou para a mãe. – A senhora não vai me desejar uma boa viagem?

― Não deveria. Não foi pra isso que te eduquei, Laís. Estou realmente abalada. – a mãe se abanou, mas abraçou a filha. – Mas que você seja feliz e que volte logo. Eu estarei esperando.

Laís apenas sorriu e saiu da casa dos pais sentindo-se mais dona de si mesma. Adulta de fato. Não a esposa modelo que todos esperavam, mas enfim livre.

Sua vida agora seria outra e ela estava ansiosa por isso.

 

FIM

 

 

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