2.
Voltei para casa e as pessoas fizeram uma festinha. Eu ignorei todos os risos forçados, os abraços, os consolos, a ideia de algumas pessoas que era só uma fase e eu voltaria a enxergar, até o bolo de chocolate eu rejeitei e olha que eu nunca rejeitava um bom doce.
Papai me abraçou e eu senti as lágrimas dele escorrendo pelo rosto. Papai nunca chorava. Nunca. Mas ele chorou quando me viu e me abraçou. Ouvi até uma conversa da minha tia com a minha mãe de que ele se sentia culpado, afinal, era ele quem estava dirigindo.
- Não é culpa sua, pai. – eu falei, com toda sinceridade, porque não achava que era mesmo. – Culpado foi o cara que bebeu e bateu no nosso carro. Ele é o culpado. Você não tem culpa de nada.
Papai segurou a minha mão e eu sabia que ele ainda estava chorando.
- Obrigado, filha. – foi só o que ele conseguiu dizer.
Papai nunca mais desceu a serra de carro. Nunca mais tivemos nosso feriadão em família. E mamãe quem passou a dirigir por muitos anos antes de papai voltar a pegar num volante para se locomover de casa para o trabalho. Precisou até fazer terapia, porque ele me via naquela situação e a culpa o corroia por dentro, mesmo sem ele ter culpa.
É uma coisa louca, né? O ‘se’.
E se, eu tivesse feito isso... E se eu tivesse feito aquilo... E se eu tivesse ficado em casa... E se eu fosse o super homem e pudesse usar meus super poderes para ninguém sair machucado.
Mas não era assim que a coisa funcionava.
*
Com o tempo, eu aprendi a me virar. O ser humano é incrivelmente adaptável. Pode estar na maior merda e mesmo assim, a pessoa vai achar um jeito de se adequar àquela situação e se virar como pode. O ser humano é na verdade um sobrevivente. A preservação da espécie sempre falará mais alto, alguém um dia me disse.
*
Aos poucos, fui dando meus primeiros passos. Era como se eu fosse um bebê que tivesse que aprender não a como falar ou me alimentar, mas como me locomover dentro de casa. Era um desafio maior do que eu imaginava, porque na minha cabeça eu ainda enxergava, mas diante de mim havia apenas a escuridão, então gerava um tremendo conflito. Eu esbarrava em tudo e em todos. Minhas mãos ganharam uma importância muito maior, tateando, sempre tentando descobrir algum obstáculo para evitar que eu caísse. E mesmo assim, não fui poupada de me esborrachar no chão.
Lembro que foi aí que eu chorei. Exatos três meses após a colisão do carro de um bêbado irresponsável contra o nosso que nos desestabilizou por muito, muito tempo. Não, não era um trauma que passaria num passe de mágica como algumas pessoas pensavam. Não. Demorou. Demorou bastante e com muita terapia.
- Eu estou inutilizada. – eu chorava e minha mãe me abraçava.
- Claro que não, Bia! Claro que não! Não está, não fala isso! Vai ser difícil, mas você vai vencer, eu sei que vai, sempre foi uma menina tão inteligente e despachada! Vai sim! E eu estou com você. Sempre vou estar com você. – ela prometeu.
E mamãe sempre esteve comigo. Largou até o emprego de anos como secretária para ficar para cima e para baixo comigo. Coitada, eu estava dando mais trabalho para ela agora na adolescência do que quando era um bebê.
Ia o oftalmologista mesmo contra a vontade, afinal, do que adiantaria mesmo? Eu não iria voltar a enxergar. Pra mim, era totalmente desnecessário, mas o médico insistia nisso.
As pessoas me chamavam de guerreira, mas mal sabiam elas o quanto eu era fraca. O quanto eu queria gritar tão alto até ficar rouca, o quanto queria chorar ou então arrancar os meus olhos e trocar por outros que me fizessem voltar a ver tudo como antes, mas não podia fazer nada disso.
Eu não era guerreira.
No máximo, era uma sobrevivente.

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