1.
Laís e Renato namoravam há seis meses. Tinham se conhecido na festa do casamento de um amigo em comum. Renato não conseguira chegar a tempo de ver a cerimônia na igreja porque, segundo Renato, o motorista do ônibus era muito lento e a chegada ao Rio Grande do Sul demorara duas horas além do planejado.
Renato declarara que se encantara por Laís não só pelos olhos negros tão brilhantes, como pela sua inteligência, doçura e sorriso.
― E claro, o gosto pelo meu time de futebol. – ele gracejou no restaurante onde os dois jantavam.
― Só não sou uma torcedora tão fanática quanto você. – ela sorriu e comeu sua salada. Vivia de dieta. A ideia de ganhar peso a apavorava.
― Mas torce comigo pela tv, o que já é uma grande coisa. – ele sorriu e bebeu um pouco de vinho para ganhar coragem. Pigarreou duas vezes antes de continuar. – Mas não foi pra falar no nosso time que precisa melhorar na tabela que te chamei aqui. Ahn... Eu só queria dizer que esses seis meses tem sido... incríveis... Que jamais esperaria conhecer alguém como você, Laís... Eu... Você sabe que eu te amo, né?
― Também te amo. – ela sorriu docemente. – Somos uma grande dupla, não é?
― Sim, eu concordo. – ele pigarreou de novo e tirou uma caixinha azul de veludo do bolso do paletó. Abriu-a e Laís ficou surpresa, sentindo o coração disparar. – Laís Souto Diegues, você aceita se casar comigo?
― Oh, meu Deus! – ela sentiu vontade de chorar e tampou a boca com as mãos.
― Ahn... Eu preciso que você responda... – ele falou um pouco ansioso.
― Ah! Desculpa! – ela riu. – Sim! Sim! – exclamou e o beijou.
Renato sorriu, aliviado e feliz e colocou o anel no dedo da agora noiva. Laís olhou para o anel, ainda emocionada. Não era uma grande pedra de diamante, até porque ele não era rico, ela estudava jornalismo e era filha de um dos maiores fazendeiros da região e ele era um médico residente que morava de aluguel em um apartamento apertado dividido com um amigo também médico, mas era um anel muito bonito, ela concluiu em pensamento. Uma pedrinha delicada de uma imitação de diamante adornava o anel folheado à ouro.
― Quando a gente se casar, sua aliança será de ouro puro. – ele garantiu.
― Ai, que isso... Está lindo assim. Eu amei de verdade. – ela sorriu, sincera.
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A família toda comemorou o noivado. Diziam que Laís e Renato nasceram um para o outro. A única coisa que deixava a mãe de Laís um pouco triste era que a filha se mudaria para o Rio de Janeiro. Renato vivia viajando para o Sul sempre que podia pra ver a namorada e a conta do telefone era sempre cara, mas depois do casamento ele não queria morar ali e sim na sua cidade natal.
― Queria a Laís perto de mim... – a mãe murmurou para o marido.
― A Laís já não é mais criança, querida. – o pai de Laís sorriu.
― Sei que não, mas ela nunca ficou longe de mim. E ir pro sudeste, para uma cidade violenta como aquela... Não sei... Fico com medo.
― A Laís vai ter o Renato agora pra cuidar dela.
― Mas o Renato não vai poder ficar 24 horas por dia perto dela. E a Laís é a nossa filha única. Não estou confortável em ver a minha filha longe de mim. Claro que estou feliz por ela estar noiva, mas quando ela tiver um filho, quem vai ajudá-la? Ahn? O Renato? Duvido. Homens são péssimos pra cuidar de bebês.
― Eu não era tão ruim assim.
― Você colocava as fraldas da Laís pelo avesso e uma vez de madrugada encheu a mamadeira dela de café e quase deu pra menina. – lembrou.
― Foram só duas vezes, credo. – ele fez bico.
― Você bem que podia dar um jeito do Renato optar por ficar aqui, não é? – a mulher o olhou incisivamente e o marido acabou cedendo. Sempre acatava a todos os pedidos dela desde a época do namoro no colegial que acabou em casamento.
― Vou fazer o que posso.
― Obrigado, querido. – ela sorriu, satisfeita e sorveu o vinho tinto.
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Foi assim que o pai de Laís mexeu os seus pauzinhos e conseguiu com que Renato pudesse fazer sua residência no melhor hospital da cidade com um salário maior do que ele ganhava no Rio e ainda com perspectiva de ganhar ainda mais no futuro quando a residência acabasse. Mesmo assim, Renato hesitou, coçando a nuca. Passou a mão pelo cabelo negro, liso e sempre bem cortado.
― Não sei, Laís. Minha vida é toda no Rio. E os meus pais?
― Você nem mora mais com eles. Fez questão de sair de casa assim que conseguiu sua residência.
― É porque eu acho ridículo um cara da minha idade ainda morar com os pais.
― Então. Agora você vai ter um emprego melhor remunerado, numa cidade de clima agradável, sem violência...
― Nem tanto, porque soube que teve dois assaltos aqui por perto. – ele lembrou.
― Sim, mas nada que se compare ao Rio de Janeiro. É uma cidade bonita, mas violenta. As pessoas lá vivem com medo. Você mesmo foi assaltado uma vez e levaram seu relógio, não é? Aqui você não vai ter essa preocupação constante. – ela ajeitou a gravata dele. – E papai é muito conhecido aqui na região. Sei que não é a capital, mas é uma cidade próspera. Limpa, organizada, aquela emissora famosa fez uma matéria aqui chamando de cidade-modelo e de oportunidades. – ela sorriu. – Você não está trocando seis por meia dúzia, está trocando por algo melhor, que te fará crescer profissionalmente.
Renato suspirou e depois assentiu, deixando Laís sentindo-se vitoriosa.
― Tudo bem. Eu posso tentar. Mas se não der certo, volto pro Rio.
― Concordo.
― E também acho que você não precisa mais fazer faculdade. Laís, agora você será a minha esposa e vão vir os filhos por aí... Eu sei que está na moda essa onda de mulheres liberais, mas você não precisa disso. Com meu salário posso sustentar nós dois.
Laís hesitou um pouco, mas a mãe já havia lhe falado disso. Na década de 60 ainda não era comum que mulheres tivessem uma carreira profissional. Elas até tinham e o número vinha crescendo, só que lentamente. E sua mãe alegara que não seria bom para a imagem de Renato ter uma mulher que trabalhasse, como se ele não pudesse sustentá-la. Era humilhante para um homem. Laís não achava que seu trabalho seria demérito pra ninguém, porém queria ficar no Rio Grande do Sul e se para convencer Renato disso ela precisasse abdicar de algo, o faria. Suspirou e assentiu, concordando.
― Ok. Além do mais, não demora a vir os filhos assim que a gente casar, né? – disse mais para convencer a si mesma do que à ele.
― Exatamente. – ele sorriu, satisfeito. – Eu vou ficar mais tranquilo com você em casa.
― Eu nem sei cuidar de uma casa... – ela murmurou.
― Sua mãe vai te dar todas as dicas, tenho certeza. – ele assegurou. – E podemos contratar uma empregada pra te ajudar.
Laís concordou e assim ficou resolvido que Renato moraria no Sul com sua jovem e bela futura esposa em uma linda e já mobiliada casa dada de presente pelo futuro genro. Laís e Renato não precisavam se preocupar com nada, o fazendeiro garantira.
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O casamento foi o mais bonito da região, fora o que se comentava na cidade. O pai de Laís não poupara despesas. Os pais de Renato ficaram impressionados. A mãe de Laís a abraçou, emocionada.
― Agora você se torna uma mulher. Minha bebezinha cresceu. Que orgulho!
― Obrigada, mãe. – Laís sorriu, mas evitou chorar para não borrar a maquiagem que mancharia sua pele alva.
Após a lua de mel, Laís começou a se acostumar de vez com a vida de casada enquanto Renato sempre saía cedo para trabalhar e muitas vezes seus horários eram loucos, mas ela já esperava por isso, sempre lhe disseram que médicos poderiam ser chamados para alguma emergência a qualquer hora do dia, da noite, até de madrugada... E o mais importante era que Renato estava feliz.
Após um ano de casamento, Renato já pensava em montar uma clínica própria com todo o aval do sogro, enquanto as preocupações de Laís eram outras: ainda não engravidara. Não conseguia entender por que. Esperava não ser infértil, pois isso seria vergonhoso.
― Ninguém na nossa família é infértil, pode ficar calma, querida. – garantiu a mãe. – Logo você engravida.
― É que me sinto tão sozinha naquela casa enorme. – Laís suspirou e tocou no cabelo com laquê. – O Renato quase não para em casa, chega cansado, conversa comigo um pouquinho sobre o seu dia no hospital, fica fazendo planos para a clínica, eu tento contar do meu dia, mas com razão ele acha desinteressante. – suspirou, frustrada. – Não faço nada. Agora que temos mais empregados na casa, então... Às vezes fico lendo, tentei cuidar do jardim, mas reguei demais as flores e elas morreram encharcadas. – bufou. – Papai vai pagar um jardineiro...
A mãe achou graça e deu tapinhas na mão da filha.
― Querida, isso é normal. Seu pai também é um homem muito ocupado e eu ficava um pouco entediada, mas passou. Você pode participar do bingo com as minhas amigas do clube.
― Não. Não gosto de bingo, acho chato.
― Ai, querida, você tem que frequentar mais o clube agora que é casada. Ampliar o seu círculo de amizades. Tenho certeza que com amigas que são jovens e recém-casadas como você, logo esse tédio e essa carinha de chateada irão sumir.
Laís acabou por concordar com a mãe, mas continuou entediada mesmo frequentando o clube com mais regularidade. Não se identificava com aquelas mulheres. Sentia falta da faculdade.
― Você não precisa fazer faculdade, Laís. – afirmou Renato, enquanto comia.
― Mas eu fico o dia todo aqui em casa sozinha com os empregados. Não faço nada de útil. Ser jornalista era um sonho. Achava tão bonitas aquelas repórteres na TV... – sorriu, sonhadora.
― Você é uma mulher casada. – ele afirmou, sério e comeu mais carne. – E quando engravidar, como vai ser? Nenhum chefe gosta de mulher grávida no trabalho. São menos produtivas. – ele bebeu suco. – Aliás, marquei uma consulta com o Dr. Alvarez pra ver o porquê de você não conseguir ter engravidado até agora.
― Você marcou por mim? Sem me consultar? – ela franziu a testa, desagradavelmente surpresa. – Eu que faria isso no momento adequado...
― Acontece que você só está enrolando, querida. Parece estar com medo. O Dr. Alvarez é ótimo. Claro que preferia uma mulher pra te consultar, mas ele é um senhor já de idade, muito respeitado e muito competente. Ele vai descobrir qual é o seu problema.
― E se o problema não for meu? – ela sugeriu, erguendo uma sobrancelha.
― Claro que o problema é seu. Na minha família não tem isso de infertilidade.
― Nem na minha.
Trocaram olhares duros. A questão do filho havia virado um problema entre o casal. Renato começou sugerindo sutilmente que Laís não pudesse gerar uma criança, mas agora falava abertamente, o que a aborrecia sobremaneira e a deixava ainda mais desconfortável quando tinha que verificar se estava em um período fértil e tentar gerar o filho para o marido. Aquela situação a deixava com os nervos à flor da pele, mesmo que não demonstrasse. Fora educada a suprimir todos os seus desagravos. Não era bom irritar um marido, aconselhava a mãe dela.
Mas e Laís? Poderia se enraivecer que estava tudo bem? Só ela podia ter os dedos apontados acusadoramente para si? Parecia-lhe bem injusto.

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