Pular para o conteúdo principal





 6.

Dois anos depois, Karine olhava para o seu novo perfil numa nova rede social. Para ser adicionado como amigo (a) dela, tinha que ser aprovado antes e Karine olhava com alívio para aquele bendito ícone de cadeado desenhado acima do seu nome.

Não tinha mais contato com Lucas e Luísa. Lucas, por motivos óbvios. Luísa, por afastamento pensado pela própria Karine. Achara que errara muito na escolha de suas amizades antigas, mas não era como se eles viessem com uma etiqueta dizendo que um dia se tornariam pessoas vis ou o total oposto do que se apresentaram.

Karine conhecera outras garotas como ela em um grupo de ajuda. Meninas que tiveram suas intimidades violadas por parceiros, hackers e até supostos amigos. Fora bom desabafar com aquelas pessoas e ainda melhor criar um grupo físico além do virtual.

― Quero que as pessoas se sintam acolhidas como eu não fui. Acredito que muitas de vocês não foram também. Fomos taxadas, expostas, julgadas, estereotipadas, rechaçadas, algumas até vilanizadas. Porque assim é a nossa sociedade. É muito mais fácil colocar a culpa na vítima e não no seu algoz. Sempre se acha explicação para tudo. Sempre tem um ‘‘será que você não fez isso ou aquilo sem querer que justificou tal ato?’’.  – ela fez uma pausa e olhou para as mulheres reunidas na pequena sala onde ficavam dispostas cadeiras de frente para a pequena tribuna. – Não é fácil, mas estamos aqui. Estamos na luta. Um grão de cada vez e encheremos uma praia. – ela sorriu. – Podem achar que é besteira, mas esse grupo, falar com vocês, me ajudou muito, me ajudou demais, numa época na qual eu mal sabia quem eu era e qual rumo tomar. Às vezes eu queria gritar e outras vezes me esconder. Cavar o buraco mais fundo e me enterrar lá. Mas isso não ajuda, é só um paliativo. Não muda as coisas. Nós temos que mudar. Nós temos que tomar as rédeas novamente e não deixar que ninguém mais nos fira, só porque não sabe ouvir um não ou acha que ‘‘merecemos’’ algo ao não atender às suas expectativas. – suspirou e olhou para as folhas. Depois para as mulheres. – Merecemos sim. Respeito. Como todo ser humano merece. E é por isso que continuaremos firmes nessa luta, mesmo que venham nos atacar e tentar nos derrubar. Essa luta não é só minha, não é só de uma. É de todas. Obrigado.

Karine foi aplaudida pelas suas companheiras de grupo e sentou em uma das cadeiras para ouvir mais relatos. Sentia-se bem. Falar sobre sua dor e sobre a impotência que sentiu, a aliviava. De certa forma.

De certa forma porque Lucas não foi punido pela justiça como Karine gostaria. Não foi preso, por pouco não foi indiciado, pediu desculpas em um post e não se falou mais nisso. Karine nunca quis reencontrá-lo, mesmo que Lucas tivesse se mostrado disposto a conversar e quem sabe, relatar uma justificativa coerente para tudo aquilo. Mas Karine não quis ouvir. Não podia sequer pensar nele sem sentir nojo e decepção. Cortou e queimou todas as fotos em que ele aparecia. Para ela, era como se tivesse morrido. E era melhor assim.

A polícia nunca descobriu quem criara a página Lady Kaira, mas felizmente ela fora deletada. Karine não tinha mais curiosidade em saber quem foi, pois sua decepção poderia ser maior. Ainda não confiava plenamente nas pessoas, ainda procurava a maldade por detrás de sorrisos, principalmente masculinos, porém não se isolava mais do mundo.

Numa coisa, Luísa estivera certa: Karine deveria seguir com a sua vida. E ela seguiu, mas de um jeito melhor, sem passar a borracha e escrever por cima, mas deixando as linhas escritas com letras garrafais e continuando de onde parou, mas dessa vez, nunca deixaria quem alguém a derrubasse daquela forma. 

Ela lutaria.

Sempre.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Blink - 5

  5. Meu aniversário de quinze anos teve bolo de cenoura com calda de chocolate, brigadeiro e em sua maioria, familiares me dando os parabéns, além do pessoal do time de futebol de 5. Todos da minha família ficaram muito impressionados por eu jogar futebol, aliás, eles se impressionavam com qualquer atividade minha, era como se fosse quase que um milagre. Pessoas com deficiência, sejam elas quais forem, podem sim ter vidas saudáveis e o mais próximo que chamam de ‘normal’. Mas o que é normal? É ser o que a sociedade espera de você? É se encaixar em algum tipo de padrão? É ser como todo mundo, todos na fila do gado, em marcha para sei lá onde? Ser como todo mundo deve ser muito chato. - Quinze anos e ganhei um computador com braile. Gostei. – disse, sorrindo. – Obrigado, pai. - De nada, filha. – ele beijou minha cabeça e sei que estava emocionado. Papai se tornou muito emotivo após o acidente e minha mãe chegou a ficar com medo dele entrar em depressão. – Me disseram na loja que ess...

Eu.com - 4

  4. Fora só por um minuto. Logo, Karine acordou com dor de cabeça. Não havia ninguém em casa. Era assim que Karine se sentia. Solitária e abandonada. Correu para o banheiro e tentou vomitar em vão. Decidiu tomar um bom banho quente, trocou de roupa e deitou-se na cama. Àquela hora estaria na internet conversando com amigos ou vendo alguma coisa inútil em páginas de redes sociais ao invés de estar estudando. Agora nem estudo ela tinha. Não até o próximo semestre, que era quando voltaria às aulas na nova faculdade. Fora uma sorte conseguir uma vaga. Ficou deitada na cama olhando para o teto até receber uma mensagem de Luísa. Karine havia trocado até o número de seu celular por não aguentar mais tanto assédio, mas informara o novo número para aquela que considerava sua melhor amiga. Mas estava começando a descobrir que amigos não existiam.  Karine hesitou em atender a chamada, mas o fez. ― Oi. – disse secamente. ― Ka, eu sei que você está passando por um grande estresse, mas ten...

Eu.com - 2

  2. Todas as mensagens de ódio recebidas e lidas pelas redes sociais ainda mexiam com ela. Teve que parar de lê-las para não destruir ainda mais o seu emocional. Teve vezes que apenas chorava. ― Vagabunda... – ela falou, mostrando as mensagens para a mãe. – Sou vadia, cadela, prostituta... Eu não sou isso, mãe! – Karine exclamou, desesperada. – A senhora está do meu lado, né? ― Claro que estou, Ka! – a mãe a abraçou. Se pudesse, colocaria Karine numa bolha onde ninguém pudesse machucá-la, mas infelizmente era impossível. – Sua mãe está aqui. É melhor você não ler mais essas coisas... ― É, mas se você não tivesse enviado as fotos pro seu namorado... – Luís disse, apoiado no batente da porta. ― Luís, ela é sua irmã! – repreendeu Dona Branca. ― Por isso mesmo! Não tinha nada que mandar nudes pro cara pela internet! Aliás, nem fora dela! Fiquei com a cara arrastando no chão quando meus amigos me mostraram! Briguei até com eles por sua causa, Karine! Está lá, estampado, naquela maldita...