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Apenas G.O.R.D.A

 





G.O.R.D.A

 

 ‘‘Nossa, como ela está gorda.’’

‘‘Ela vai melhorar, vai fazer dieta.’’

‘‘Está muito gorda.’’

Gordo é xingamento.

Gordo é defeito.

Gordo é desleixo.

Ser gordo é ofensivo para os outros.

‘‘Só quero o seu bem’’

‘‘Estou pensando na sua saúde.’’

‘‘Nossa, como você engordou, hein?’’

Nunca fui gorda na minha infância e adolescência. Era bem magrela até. Nunca tive que lidar com cobranças sobre o meu peso, aliás, sempre brincavam que eu comia muito e nunca engordava. Quase um milagre da natureza.

Até que tudo mudou e aos poucos, fui ganhando peso e isso se tornou um problema. Pros outros ao meu redor, principalmente. Porque não é a própria pessoa que costuma realmente se incomodar com o seu peso. São os outros! Os outros que ficam regulando quanto você mede, pesa, quantos quilos perdeu ou ganhou. Afinal, é um abuso a pessoa engordar (seja por qual motivo for), é um absurdo ofender assim os olhares alheios. Deveria ficar trancada em casa e nunca mais sair para que ninguém veja sua cara e seu corpo gordo.

O gordo não pertence mais à sociedade. Ele é um pária e só voltará a ser bem aceito no dia em que emagrecer. Ser gordo é odioso, mas as pessoas disfarçam a sua raiva com a fachada de que se preocupam com a saúde da pessoa com gordurinhas a mais.

Por um tempo, pensei mesmo em não mais sair de casa e não saí por muito tempo. Pensava nos olhares que me dirigiriam. Me olhava no espelho e me via inchada, a pele oleosa, não havia mais beleza, só havia gordura e um corpo deformado. Assim eu me sentia. Sair por aí para ser humilhada e receber olhares nada agradáveis? Melhor ficar em casa, protegida, esquecida, longe, distante, em uma concha, escondida.

Até fiquei mais branca do que sou, mais pálida, claro, não saio à rua, os raios solares não batem na minha pele, como poderia ganhar alguma cor que não fosse a de um fantasma?

Porém, não dá pra ficar encastelada para sempre. Uma hora, tem que sair do casulo.

Enfrentar o mundão lá fora, como já dizia meu avô.

E fui. Com a cara e a coragem. Parece besteira, mas quando se é hostilizada e quando se percebe que para até os seus amigos você não vale pelo o que é, mas sim pelo o que pesa, as coisas mudam de perspectiva. Sair de casa se torna uma luta contra si mesmo quando tem que ficar escolhendo qual a roupa irá esconder melhor as ‘‘imperfeições’’ do seu corpo, qual a roupa mais larga que te criará uma redoma de proteção contra olhares pouco desejados.

‘‘Essa não deixa minha barriga aparecer.’’ – ajeito a roupa preta.

Preto é a cor ideal. Esconde o que não se quer mostrar: gordura. Ser gorda é feio, então é preciso se ter no vestuário peças que não te deixem à mostra.

Parece muita vitimização. Porque não fazer logo o raio de uma dieta milagrosa e emagrecer de vez ao invés de ficar choramingando o quão injustiçada é?

Já fiz dietas. Já fiquei um dia inteirinho sem comer e no final do dia só queria comer ou vomitar, o que viesse primeiro. As dietas mais restritivas prometiam me deixar magra em questão de segundos, quer dizer, dias. E se elas não surtiam o efeito desejado, mais culpada eu me sentia. Porque sinto culpa. Culpa por ter engordado e me deixado ‘‘enfeiar’’. Como pude fazer isso comigo mesma? Não tenho amor próprio? Na verdade, ser taxada de ‘‘a gorda feia e desleixada’’ não ajudou muito na minha auto estima. Ser gorda é um crime, não dá pra esquecer quando todos te lembram disso. Então, como criminosa, sempre me veem o remorso de comer e depois querer vomitar tudo para compensar, como um castigo. Quantos laxantes já não tomei e quantos ainda irei tomar? Se pudesse, tomava laxantes todos os dias. Um colher de comida na boca, um laxante na mão. Compensa, compensa, compensa. Comer é errado, tem que emagrecer. E como emagrecer não é tão fácil como engordar, o jeito é a auto punição. Ficar sem comer o que gosta. Entrar numa lanchonete de marca famosa para comprar o big alguma coisa nem pensar. O que essa gorda pensa que está fazendo? Quer explodir de tanto comer? Tem que emagrecer!

Vômito, laxante, apenas água, comer o mínimo possível, a comida é o inimigo, você está errada, você não merece ter uma relação saudável com o que come, tem mais é que ficar sem comer para aprender. Só ficando sem comer emagrece.

‘‘Que tal dois dias, uma semana, vivendo só a bolachas de água e sal e água?’’ – eu penso. ‘‘Ou então comer só arroz sem mais nada?’’ – é uma ideia boa. ‘‘Só salada é bom, mas como fica meu lado carnívoro?’’

Pensamento de gorda em alerta!

Gordo só pensa em comer, é o que dizem. Quando não tá dormindo, tá comendo. E todas as comidas mais gordurosas do mundo. As mais inadequadas. Aquelas que realmente te darão mais peso, mais gordura localizada para ter que lidar.

Sou muito interessada em histórias de anoréxicos. Desenvolvi esse gosto depois que percebi através das pessoas que me querem tão bem que sou uma gorda cretina que tem que emagrecer a todo custo para que eles se sintam melhores.

Queria muito ser anoréxica. Anorexia não me parece tão ruim quando o preço é a magreza. E uma magreza absoluta, daquelas de não se ficar mais com inveja de um esqueleto. Acho que 36 quilos seria o meu peso ideal. Para 1,59m parece um bom negócio. Bulimia já não acho que seria a minha área já que não sou boa em vomitar. Tentei várias vezes e o resultado é pífio. Além de gorda, incompetente para jogar fora os dejetos que come. A comida não é amiga, ela é o seu maior carrasco. Só serei amada, ficarei bonita e serei aceitável se emagrecer. Muito. Uns vinte quilos pelo menos. Porque eu não sou anoréxica? Porque não consigo ficar sem comer por dias? Porque a comida é uma vilã comigo? Comer não é bom. Bom é emagrecer.

Parece um pensamento meio neurótico, talvez. A minha relação com a comida é tão desgastante assim? Meu psicológico já está todo ferrado? Claro que não! Se eu fosse magra, daquelas que não podem ver um prato de comida que sentem asco, vá lá, mas infelizmente ainda sinto vontade de comer. É chato ter um estômago que pede para ser alimentado, um corpo que precisa recarregar as baterias e que por causa disso acumula comida em seu organismo. O corpo deveria poder sobreviver sem isso.

‘‘Entrar na faca é uma opção’’- penso, bebendo meu copo d’água e pensando que seria bom só ficar nisso. Água e mais nada. Afinal, o corpo precisa ser hidratado, ainda mais com esse calor que faz nos trópicos. Se eu tivesse nascido na Europa, naquele friozinho gostoso, talvez sentisse menos fome e com certeza estaria vivendo em um país melhor, mas não quero entrar nesse mérito aqui.

O problema é: falta de tempo $$$.

A grana está curta, a República das Bananas vive em crise, não tem emprego para todos, não tem dinheiro para o povo, só para os que roubam, seja lá em Brasília ou em qualquer lugar, não se vive, sobrevive, há trabalho demais e remuneração de menos. Viver dignamente e com uma renda que permita não se morrer de fome não parece ser uma opção nesse país. Então aonde que irei encontrar dinheiro para passar a faca nesse corpo gorduroso e deixá-lo menos deformado? Deixá-lo, quem sabe, no ideal de corpo de boneca? Corpo de modelo. Um corpo sem uma grama a mais. Um corpo seco, modelado, belo de se ver, com tudo de ruim nele sendo sugado. Aí sim, ser bonita de verdade. Porque ser bonita é ser magra. Esquelética, talvez.

Você é bonita do jeito que é.

É fácil se dizer isso quando se é magro (a) não é mesmo? É fácil ser politicamente correto quando não se tem quilos que te fazem uma aberração.

Se olhar no espelho e estar satisfeito com o que se vê deve ser muito legal. Queria ter essa sensação algum dia.

É porque a verdade, pensando aqui com os meus botões, a minha auto estima sempre foi baixa. Mesmo quando magra. Quando me sentia relegada, à margem, sem me encaixar em grupo nenhum. Estava lá por estar, mas se não estivesse, melhor ainda. Ninguém sentiria falta. Ninguém sentiria falta nem mesmo nos dias de hoje. Talvez lamentassem um pouco, mas seguiriam em frente. A maioria das pessoas que conheço nem saberia. É por isso que me afasto de todas elas. Conheço, faço amizade, parece que vai durar, mas aos poucos vou me distanciando. É melhor não sofrer por aquilo que nunca se teve. A gente nasce sozinho, a gente vai pra cova sozinho, então pra que viver em bando? É melhor do que ser descartado depois. Então se torna mais fácil não se aproximar demais, manter uma distância segura, nunca se abrir, revelar demais, sempre mantendo-se pronto para montar em um cavalo e ir embora para nunca mais voltar. Os relacionamentos passageiros te dão a vantagem de nunca sofrer realmente por eles quando se vão. É apenas mais uma fase da vida. É claro que existe a solidão. E a solidão dói, por mais que se tente ignorar e aí voltamos à comida. Descontar na comida se torna uma opção. Não tem companhia, não tem calor humano, mas tem a comida. E depois a culpa. A culpa sempre vem. Porque comer achando que isso vai preencher algum tipo de vazio de algo que não se tem? A comida só infla mais o corpo. A comida não é uma aliada, ela é aquela que irá te destruir. Explodir como aquela personagem de uma novela na televisão.

O espelho está sempre coberto por um pano. Ele está lá, grande, de corpo inteiro, mas sempre coberto. Desnudá-lo é talvez desnudar a própria alma. Quanto exagero, é só um corpo. Um bendito corpo que quando me for daqui, o que espero, seja o mais breve possível, irá se desfazer debaixo da terra. Do pó se formou, ao pó retornarás.

Mas ainda não é pó. Ainda é corpo. Ainda são ossos, carne e pele. Carne demais. Deveria ser carne de menos.

Aprenda a se amar!

Como? É difícil amar a si mesmo quando não se tem muito valor. O valor é rasteiro, coisa de centavos, coisa micha, coisa pouca, coisa chula. Nem vale a pena. O que sou além de pó e cinza? Além de um peso morto que caminha sobre as ruas? Além de uma encheção de linguiça que existe só para preencher aquele espaço? Quantas pessoas estão fazendo hora extra no mundo? Quantas pessoas estão ocupando espaços desnecessários? Quantas pessoas que já nem deveria estar mais aqui? Quantas pessoas deveriam puxar a cordinha e pedir para descer desse planeta? Tem gente demais que deveria ser de menos. Ao que sei, sou uma delas. Apenas mais um corpo ocupando o lugar que poderia ser de outro. Qual a finalidade disso tudo? Qual é o sentido de se viver? Ainda não descobri. Parece ser tão sem sentido.

Toco na minha barriga. Conscientemente, sei que ela nem é tão grande assim, na verdade, tem dias que nem me sinto tão gorda, mas é só olhar no espelho que me dou conta o quão feia e desengonçada sou. Porque tirar o pano de cima do espelho? Pra que isso? Pra que se torturar? Já não basta ouvir todos os dias que preciso emagrecer? Que para o meu próprio bem seria bom pesar menos? Que o meu valor, o que sou, o que serei, o que me define, é o meu peso? Será que não tenho consciência o suficiente disso? Mas não, tenho que me ver, nem que seja só uma vez ao ano, tenho que olhar e ver o corpo que odeio. Porque se eu me odeio como ninguém é capaz de me odiar, porque não odiaria o meu corpo por tabela? Se caso se odiar for uma arte e eu a domino muito bem, obrigado. Não sou bonita, mas também não sou horrorosa. A parte racional em mim sabe disso. Não sou daquelas capaz de assustar alguém só de me olhar. Dá pra me olhar sem sentir nojo. Só que eu, muitas vezes, sinto nojo de mim mesma. Me olho direito e só me acho defeitos. Não tem nada de bom em mim. Fazendo hora extra no planeta desde que nasci, essa é a realidade. Seria tão melhor se eu não existisse! Porque a morte não vem logo? Só porque eu não tenho coragem de apressá-la? Só porque eu tenho medo da punição divina caso eu mesma decida retirar o fôlego de vida?

Dou socos em mim mesma, mas não choro. Pra que? Seria gastar lágrimas à toa. Preciso é focar em emagrecer. Se eu emagrecer, tudo vai melhorar pra mim, eu sei. Eu terei a vida que sonhei. Uma vida onde eu sou perfeita, onde caibo em todas as roupas, onde caminho e recebo olhares de admiração, onde deixo o espelho descoberto, onde nunca mais serei rejeitada ou relegada, onde farei a diferença para alguém.

Ninguém vai te amar se você não se amar primeiro.

Mas eu não me amo, essa é a questão. E com esse corpo gordo, menos ainda. Detesto-me com todas as minhas forças. E ninguém nunca me amou, quer dizer, além de pai e mãe. Porque pai e mãe te amar não fazem mais que a obrigação deles, não é? Mas os outros te amarem, aí é diferente. As pessoas até podem gostar um pouquinho de mim, mas eu sei que se eu não fizer mais parte da vida delas, não farei falta.

Acho que no fundo, só quero sumir. Só quero deixar de ser eu. Gorda ou magra. Branca ou negra. Alta ou baixa. Morena ou loira. Desaparecer e viver outra vida que não seja a minha. Ser outro alguém que não sou. Será que existe outro eu, em outro lugar, em outra dimensão, que não seja exatamente o que eu sou? Que seja eu, mas sem ser eu? Entende? Ser alguém com o meu rosto, com algumas das minhas características, mas sem ser eu de fato. Ser outra pessoa. E sem esse corpo, claro. Com o corpo que sonho. O corpo de alguém que se ama, gorda ou não.

Gorda ou não, ser ou não ser, eis a questão.

A gorda que existe em mim queria ser outra. Não só pela gordura, mas pelo que sou. Ser alguém que olha para a vida de cabeça erguida e peito aberto. Sem medo. Apenas vivendo. Apenas sendo. Gostem ou não, estou aqui. Essa pessoa, essa outra pessoa, que vive em outro mundo e que não sou eu, mas poderia ser eu. Essa pessoa que quero ser. E porque não ser? E porque não se aceitar do que jeito que é? Cada um nasce de uma forma, cada um tem sua personalidade, sua história, seus caminhos, seus desvios, seus acertos, seus erros, suas conquistas, suas lágrimas. Cada palavra em sua vida, cada traço, cada caminho, isso que te torna quem você é. Isso é o que te molda. Jamais poderia ser outra pessoa além de mim mesma. Gostaria de ser, mas teria de deixar de ser eu. E no fundo, sei que todos somos únicos. Cada um do seu jeito. Cada um com seus erros e acertos. Cada um com o seu corpo, como ele for, como ele está moldado, como ele será ou não. Porque pode ser que seja só mais uma fase da vida. A vida não é um único ato. São muitos que se acumulam e vão formando a sua história. A narrativa sempre é diferente. Alegria aqui e tristeza acolá. Choro aqui e riso que vem pra cá. A vida é assim. Pequenos pedaços que se vão alinhando o quebra-cabeças até virar uma imagem do que se é. E se é o que se é. Não existe um botão que se aperta, apaga tudo e começa de novo. O que ficou para trás, está lá atrás, mas existe e constrói o que você é.

A gordura é um traço de mim mesma. É uma história que vivi e continuará a ser vivida até o último sopro. E a vida que parece ser tão longa, às vezes tão breve, vai desenhando as suas linhas.

Posso mudar o meu corpo. Posso desenhá-lo de outra forma. Posso moldá-lo como massinha. Emagrecer e ser tornar plenamente satisfeita? Naturalmente que não será assim. Aqui, bem dentro da minha mente, eu sei. Não é a falta ou o excesso de gordura que me faz ser quem eu sou. Não é ser um padrão que me fará menos ou mais feliz. Porque o que procuramos não é isso? A tal felicidade? E o engraçado que não percebemos que ser feliz não é um filme de Hollywood, mas é ser feliz em pequenos atos, gestos e amores. Ser feliz não é ser menos ou mais gorda, menos ou mais escultural, ser feliz é mais do que isso e às vezes mais simples do que pensamos.

Ser feliz é aceitar que a vida te leva para aquele ou outro caminho, que as suas escolhas moldarão o seu destino e que não é o seu corpo perecível que vai ditar as regras do jogo. Um corpo vem e se vai. O corpo enxuga e engorda. O corpo jovem e envelhece.

Ser gordo não deveria definir o que você é. Ser você é o que define o que você é. E se as pessoas ao seu redor não enxergam isso, é problema delas. Talvez o problema esteja nelas e não em você. São eles que não são felizes com o que tem e querem regular o que você é.

É estranho ter esse tipo de consciência racional e querer chorar, mas se segurar.

Ser feliz e se bonito é ser você. Gorda ou não.

 

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