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Eu.com - 2

 




2.

Todas as mensagens de ódio recebidas e lidas pelas redes sociais ainda mexiam com ela. Teve que parar de lê-las para não destruir ainda mais o seu emocional. Teve vezes que apenas chorava.

― Vagabunda... – ela falou, mostrando as mensagens para a mãe. – Sou vadia, cadela, prostituta... Eu não sou isso, mãe! – Karine exclamou, desesperada. – A senhora está do meu lado, né?

― Claro que estou, Ka! – a mãe a abraçou. Se pudesse, colocaria Karine numa bolha onde ninguém pudesse machucá-la, mas infelizmente era impossível. – Sua mãe está aqui. É melhor você não ler mais essas coisas...

― É, mas se você não tivesse enviado as fotos pro seu namorado... – Luís disse, apoiado no batente da porta.

― Luís, ela é sua irmã! – repreendeu Dona Branca.

― Por isso mesmo! Não tinha nada que mandar nudes pro cara pela internet! Aliás, nem fora dela! Fiquei com a cara arrastando no chão quando meus amigos me mostraram! Briguei até com eles por sua causa, Karine! Está lá, estampado, naquela maldita página que ninguém derruba! – reclamou o adolescente.

― Eu já entrei em contato com o dono do site, mas eles dizem que o infeliz não infringiu nenhuma lei. – Karine passou a mão pelo rosto, agoniada. – Você concorda então com toda essa gente, Luís? Que eu sou uma vadia, é isso?! – perguntou Karine, chateada com o irmão.

― Ai, não é isso, droga! Só que se você não quer se exposta, não se exponha! Pronto! Você lembra do nudes do Pepeu que vazou ano passado?

― Eu lembro que ele foi até ovacionado pela turma! – Karine exclamou, ressentida. – Elogiaram o tamanho do ... vocês sabem... Hunf! E nem era tão grande assim!

― Karine... – a mãe a olhou feio.

― Desculpa, mãe. Acontece que o Pepeu foi elogiado, todo mundo achou graça, se divertiu, foi ótimo, o Pepeu virou astro por um dia da faculdade! E eu virei a puta! É, é essa a palavra, mãe! – ela exclamou, diante do ar desgostoso de Branca. – Eu sou a prostituta da faculdade! Até sugestão de fazer programa eu recebi! – Karine teve vontade de quebrar o notebook e se ergueu da cama. – Dois pesos e duas medidas! O meu ex-melhor amigo faz um vídeo super ofensivo despejando um monte de mentiras pela internet e todo mundo acredita! Até você, Luís, que é meu irmão!

― Quem disse que eu achei aquilo legal? Você tá viajando, Karine! – Luís prendeu o cabelo comprido que ele preservava desde que entrou em sua fase roqueira. – Não acho não! O Lucas é um filho da puta!

― Por favor, chega dessas palavras de baixo calão aqui nessa casa! – pediu Branca.

― Mas ainda assim você acha que eu errei... – Karine cruza os braços e encara o irmão.

― De ter mandado os nudes e constrangido toda a família? Sim. Desculpa, mas é como penso. Olha o estado da mamãe... O papai até fechou a oficina por dois dias de tantos comentários... Essa é uma cidade pequena, Karine e as coisas se espalham com o vento. De repente somos conhecidos por todos e não por uma boa coisa.

― Você é um cretino. – Karine esbravejou, deu um forte empurrão no irmão com o ombro e saiu do quarto.

‘‘Puta.’’

‘‘Vadia.’’

‘‘Sempre achei que ela fosse uma piranha, aquela carinha de santa nunca me enganou.’’

‘‘A Karine, quem diria, hein? Toda certinha, mas gosta de ficar pelada na internet.’’

‘‘Bati uma. Achei bem gostosa.’’

‘‘Uma gostosa dessas aqui em casa eu faria um estrago.’’

‘‘Porque não colocou logo as fotos num outdoor da cidade? Vadia!’’

‘‘Pessoas vemos, costumes não sabemos.’’

As palavras digitadas na web queimavam a mente de Karine como fogo. Ela não era nada disso. Ela só fora ingênua o suficiente para achar que não teria problema em mandar fotos sensuais sua para o namorado, afinal, eles estavam juntos há três anos. Ele era confiável e ela salvou as fotos numa nuvem. Só que agora descobrira que um hacker poderia simplesmente se apropriar das fotos e fazer da vida da vítima um inferno. Jamais imaginara algo desse tipo acontecendo com ela.

Karine desceu a escada e viu seu namorado, João, parado na sala. Ela sorriu, correu e o abraçou.

― João, você não dá notícia há dias! Te mandei mensagens, liguei, mas só cai na caixa postal... Preciso tanto de você! Finalmente a polícia descobriu quem fez essa barbaridade comigo! O Lucas Alto, tem cabimento isso?! O meu melhor amigo! Fez aquele vídeo infame e toda a internet me trata como uma... – ela engoliu a palavra. – E não duvido nada dele estar por trás da página da Lady Kaira! Olha o nome! Só podia sair daquela mente doentia! Lady Kaira em fotos nojentas, escrevendo coisas bizarras e usando a minha imagem! É um absurdo!

― É... – foi só o que João disse, afastando-se dela. Karine não entendeu o porquê da frieza. – Eu vi a página da Lady Kaira...

― Pior que já mandei mil e-mails, expliquei a situação e nada de retirarem aquela porcaria de página do ar! To muito nervosa, mal consigo dormir!

― Karine... Tem certeza de que você não enviou aquelas fotos pro Lucas? Ele falou no vídeo que vocês dois transaram, mas daí, de repente, você lembrou que tinha namorado e o rechaçou. Ele se sentiu enganado porque você tinha garantido, dias antes, que a gente não estava junto. – João foi falando e Karine estava de olhos arregalados, sem conseguir acreditar no que ouvia. – E nós tínhamos brigado naquela época. Eu lembro que você pediu até um tempo, dizendo que eu estava te sufocando, que você precisava de um tempo pra pensar em si mesma e eu respeitei. Mas será que não foi...

― Pra que? Uma desculpa pra transar com o Lucas Alto? É isso? Eu considerava aquele traste quase como um irmão!

― Quase não é ser. – afirmou João e Karine cerrou os dentes, irritada. – Vocês viviam grudados pra cima e pra baixo e pra falar a verdade, nunca vi isso com bons olhos.

― Era a Luísa, ele e eu, você mesmo nos apelidou de ‘‘Os três mosqueteiros’’! Eu não to te entendendo, João!

― É claro que está. Você dizia que podia confiar no Lucas de olhos fechados...

― E podia mesmo! Ou achava que podia até ele me esfaquear pelas costas sem motivo!

― Será que foi sem motivo? Ou você deu alguma brecha pra ele? Qual é, eu já te vi sentar no colo dele numa festa aqui na sua casa!

― Foi uma brincadeira!

― Ou só um disfarce. – João rebateu e passou a mão pelo cabelo raspado. – Eu não sei se te conheço mais, Karine. Bem que a minha tia falou que por mais anos que se conviva com uma pessoa, nunca se conhece ela totalmente. – ele lamentou. – E olha, se o meu nome for parar no meio dessa zona, eu processo você e o seu amiguinho. – ameaçou.

Aquilo foi a gota d’água para Karine. Ela explodiu.

― Processa mesmo! Processa sua bunda! Você é ridículo! Como você vem aqui na minha casa me ofender?!

― Você me ofendeu primeiro com aquelas fotos em todas as redes sociais para todo mundo ver!

― NÃO FUI QUEM DIVULGUEI!! – ela berrou.

― Não grita!!

Karine correu para a porta e a abriu.

― Vai embora!! Some!! Desaparece!! Eu sou a errada, né?! Um celerado mostra as minhas fotos pro mundo todo ver e eu que sou a culpada!!

― Estou só querendo entender.

― Não, você está me acusando deliberadamente! Vai embora! Acabou! – ela decidiu.

― Se é assim que você quer... – João foi até a porta e parou. – Sabe, por um momento eu achei que não era você. Mas aí vi as fotos no meu computador e tive certeza. Você não precisava se exibir assim.

― Sai antes que eu arranque todos os seus dentes dessa boca maldita! – ela rosnou. – E deleta as minhas fotos do seu computador, senão serei eu a te processar, seu cretino!

João assentiu gravemente e saiu dali. Karine bateu a porta com força, quase trincando o vidro. Ela deu um grito e agarrou os cabelos com raiva. Seria capaz de matar Lucas Alto naquele momento.

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