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Mostrando postagens de outubro, 2021

Blink - 5

  5. Meu aniversário de quinze anos teve bolo de cenoura com calda de chocolate, brigadeiro e em sua maioria, familiares me dando os parabéns, além do pessoal do time de futebol de 5. Todos da minha família ficaram muito impressionados por eu jogar futebol, aliás, eles se impressionavam com qualquer atividade minha, era como se fosse quase que um milagre. Pessoas com deficiência, sejam elas quais forem, podem sim ter vidas saudáveis e o mais próximo que chamam de ‘normal’. Mas o que é normal? É ser o que a sociedade espera de você? É se encaixar em algum tipo de padrão? É ser como todo mundo, todos na fila do gado, em marcha para sei lá onde? Ser como todo mundo deve ser muito chato. - Quinze anos e ganhei um computador com braile. Gostei. – disse, sorrindo. – Obrigado, pai. - De nada, filha. – ele beijou minha cabeça e sei que estava emocionado. Papai se tornou muito emotivo após o acidente e minha mãe chegou a ficar com medo dele entrar em depressão. – Me disseram na loja que ess...

Blink - 4

  4.   Tive que mudar de escola assim que voltei a estudar. Meus pais descobriram que minha escola não tinha o mínimo de suporte para alguém com deficiência visual e nas aulas, ou era tratada como um bebê de colo incapaz de fazer qualquer coisa ou era deixada de lado especialmente nas atividades esportivas. As pessoas simplesmente não sabiam como lidar comigo. Eu completei meus quinze anos em uma escola nova e que sabia como lidar com um deficiente visual sem tratar como se fosse algo de outro planeta. - Até porque você não tem que ficar excluída só por causa da sua deficiência. – minha mãe alegou, me ajudando a amarrar os tênis. Eu conseguia me vestir mas sempre empacava com os tênis. Nunca amarrava direito, sei lá porque. – Não vivem falando de inclusão na TV, nos jornais, na internet? Então. Você pode ser uma boa aluna sim, interagir com os coleguinhas sim e pronto. Nada de ficar em casa. Escola é pra isso, é para aprender. E você não vai conseguir ser uma astronauta se não...

Blink- 3

  3.   - O que você vai querer no seu aniversário de quinze anos? – minha prima Olívia me perguntou, enquanto eu treinava ler em braile. - Nada que me venha à cabeça. Na verdade, havia uma coisa que eu queria muito mas a vida não me daria de volta, então para não fazer as pessoas ficarem tristes ou chorarem, eu evitava falar o quanto sentia falta da minha visão. - Estava pensando no que comprar pra você, até pensei nos DVDs daquela série, mas... – ela parou ao ver que entraria em terreno perigoso. Não iria comprar porque lembrou que não podia ver. – Sei lá, aí pensei em te perguntar. - Uma caixa de sorvete de morango seria uma boa. Sempre gostei muito de morango. – falo por falar. - Sorvete de morango, anotado. Mas vou tentar algo mais criativo, prometo. Eu apenas dei um sorrisinho e deixei pra lá. As minhas conversas com Olívia ficaram muito limitadas depois do acidente. Ela, como todo mundo da minha família, estavam sempre pisando em ovos para falar comigo sobre qualquer coi...

Blink - 2

  2. Voltei para casa e as pessoas fizeram uma festinha. Eu ignorei todos os risos forçados, os abraços, os consolos, a ideia de algumas pessoas que era só uma fase e eu voltaria a enxergar, até o bolo de chocolate eu rejeitei e olha que eu nunca rejeitava um bom doce. Papai me abraçou e eu senti as lágrimas dele escorrendo pelo rosto. Papai nunca chorava. Nunca. Mas ele chorou quando me viu e me abraçou. Ouvi até uma conversa da minha tia com a minha mãe de que ele se sentia culpado, afinal, era ele quem estava dirigindo. - Não é culpa sua, pai. – eu falei, com toda sinceridade, porque não achava que era mesmo. – Culpado foi o cara que bebeu e bateu no nosso carro. Ele é o culpado. Você não tem culpa de nada. Papai segurou a minha mão e eu sabia que ele ainda estava chorando. - Obrigado, filha. – foi só o que ele conseguiu dizer. Papai nunca mais desceu a serra de carro. Nunca mais tivemos nosso feriadão em família. E mamãe quem passou a dirigir por muitos anos antes de papai volt...

Blink - 1

  1. Meus pais adoravam descer a serra para aquelas típicas folgas de feriadão. Eles gostavam sempre de sair às 8:00hrs da manhã porque juravam que era o melhor horário para pegar a estrada mas sempre acabávamos sendo inseridos em algum engarrafamento. E quando é que não tem um engarrafamento em São Paulo? Meu pai adorava colocar um pagodinho dos anos 90 (segundo ele, a melhor década da vida) para tocar enquanto o carro mal conseguia sair do lugar e eu ficava cantando com uma voz esganiçada que fazia minha mãe tapar as orelhas com as mãos e dizer que definitivamente meu futuro não estava na música. Lembro que tudo era muito divertido. Mesmo com toda aquela dificuldade para apenas curtir uma mísera folga do dia-a-dia atribulado, mesmo que a gente chegasse cansados na pousada, só pensando em tomar um bom banho, comer alguma coisa e dormir, mesmo assim, era muito bom estar em família naqueles momentos. Era quando nos sentíamos mais unidos, eu acho. Foi numa dessas saídas para mais um ...
  6. Dois anos depois, Karine olhava para o seu novo perfil numa nova rede social. Para ser adicionado como amigo (a) dela, tinha que ser aprovado antes e Karine olhava com alívio para aquele bendito ícone de cadeado desenhado acima do seu nome. Não tinha mais contato com Lucas e Luísa. Lucas, por motivos óbvios. Luísa, por afastamento pensado pela própria Karine. Achara que errara muito na escolha de suas amizades antigas, mas não era como se eles viessem com uma etiqueta dizendo que um dia se tornariam pessoas vis ou o total oposto do que se apresentaram. Karine conhecera outras garotas como ela em um grupo de ajuda. Meninas que tiveram suas intimidades violadas por parceiros, hackers e até supostos amigos. Fora bom desabafar com aquelas pessoas e ainda melhor criar um grupo físico além do virtual. ― Quero que as pessoas se sintam acolhidas como eu não fui. Acredito que muitas de vocês não foram também. Fomos taxadas, expostas, julgadas, estereotipadas, rechaçadas, algumas até vi...

Eu.com -5

  5. Karine e Lucas estavam deitados na grama do campus da faculdade no horário do intervalo. Karine olhava para o céu e pensava nos desenhos que as nuvens pudessem fazer. Depois se sentiu meio idiota, meio em um filme pretensioso, meio em um poema vazio e riu consigo mesma. Lucas a olhava diretamente. ―  Você tem um sorriso lindo. ―  Obrigado. – ela disse, ainda olhando para as nuvens. ―  Você é muito bonita, Karine, sabe disso, né? ―  Sei, eu tenho espelho em casa. – ela disse em tom brincalhão e eles riram. – O João também acha que eu sou bonita. Vive nessa de me chamar de gatinha pra lá, gatinha pra cá, daqui a pouco to ronronando e tomando banho de língua. ―  Não acredito que você ainda perde seu tempo com aquele João. – disse Lucas, desgostoso. ―  Ele é legal. ―  Mas você não é apaixonada por ele. – afirmou Lucas. ―  Já fui mais. Hoje em dia? Menos. Mas acontece. O dia-a-dia e os anos meio que matam a paixão louca. Se bem que eu acho qu...

Eu.com - 4

  4. Fora só por um minuto. Logo, Karine acordou com dor de cabeça. Não havia ninguém em casa. Era assim que Karine se sentia. Solitária e abandonada. Correu para o banheiro e tentou vomitar em vão. Decidiu tomar um bom banho quente, trocou de roupa e deitou-se na cama. Àquela hora estaria na internet conversando com amigos ou vendo alguma coisa inútil em páginas de redes sociais ao invés de estar estudando. Agora nem estudo ela tinha. Não até o próximo semestre, que era quando voltaria às aulas na nova faculdade. Fora uma sorte conseguir uma vaga. Ficou deitada na cama olhando para o teto até receber uma mensagem de Luísa. Karine havia trocado até o número de seu celular por não aguentar mais tanto assédio, mas informara o novo número para aquela que considerava sua melhor amiga. Mas estava começando a descobrir que amigos não existiam.  Karine hesitou em atender a chamada, mas o fez. ― Oi. – disse secamente. ― Ka, eu sei que você está passando por um grande estresse, mas ten...

Eu.com - 3

  3. ― Eu falei com ele. – Luísa foi dizendo depois de sorver um pouco do milk shake. Olhou em redor da praça de alimentação para dar tempo de Karine digerir a informação. – Falei. Não resisti. Fui falar com o Lucas. ― Eu pedi pra você se afastar dele... – disse Karine numa voz mansa, mas já chateada. Porque todos resolveram desrespeitá-la de uma só vez? ― E me afastei. – garantiu Luísa. – Mas não podia ficar com a dúvida entalada na minha garganta. É um caso muito sério, Ka. Nós três éramos inseparáveis e de repente acontece tudo isso! Ninguém tá conseguindo entender realmente o que tá rolando! ― O que tá rolando sou eu sendo difamada pela internet afora! Minhas fotos foram parar até em sites pornográficos! Eu durmo a base de tranquilizantes! Deletei todas as minhas contas das redes sociais mas nem isso faz com que as pessoas esqueçam e me deixem em paz! Eu tenho medo até de sair de casa! ― Besteira, ninguém vai fazer nada com você na rua... – Luísa mordeu um pedaço do hambúrguer....

Eu.com - 2

  2. Todas as mensagens de ódio recebidas e lidas pelas redes sociais ainda mexiam com ela. Teve que parar de lê-las para não destruir ainda mais o seu emocional. Teve vezes que apenas chorava. ― Vagabunda... – ela falou, mostrando as mensagens para a mãe. – Sou vadia, cadela, prostituta... Eu não sou isso, mãe! – Karine exclamou, desesperada. – A senhora está do meu lado, né? ― Claro que estou, Ka! – a mãe a abraçou. Se pudesse, colocaria Karine numa bolha onde ninguém pudesse machucá-la, mas infelizmente era impossível. – Sua mãe está aqui. É melhor você não ler mais essas coisas... ― É, mas se você não tivesse enviado as fotos pro seu namorado... – Luís disse, apoiado no batente da porta. ― Luís, ela é sua irmã! – repreendeu Dona Branca. ― Por isso mesmo! Não tinha nada que mandar nudes pro cara pela internet! Aliás, nem fora dela! Fiquei com a cara arrastando no chão quando meus amigos me mostraram! Briguei até com eles por sua causa, Karine! Está lá, estampado, naquela maldita...

Eu.com - 1

  1.   @LucasAlto: E então, empolgada para o primeiro dia de aula na faculdade? @KarineKallil: Muito! Ah, não vejo a hora! @ LucasAlto: Vê se não vai esquecer de mim por lá, hein! @KarineKallil: Com todas aquelas matérias e TCC, vou ter sorte se lembrar de mim, garoto! @LucasAlto: Hahahaha! Boa sorte!   Karine olhava aquelas mensagens e nem acreditava que um dia, Lucas fora seu amigo. Ou ela pensava que ele era seu amigo. Seu melhor amigo. O garoto da vizinhança que foi o primeiro a falar com ela quando chegou ao bairro. O cara que estava sempre ao seu lado na escola quando sofreu bullying por ser gordinha. Que a apoiou e ajudou quando ela teve anorexia e teve que vencer a doença. Era esse cara mesmo que ela via agora? Era esse cara mesmo que fizera o que fizera com ela? Não podia ser. ― Às vezes eu acho que algo possuiu o corpo do Lucas, só pode. – Karine falou para sua outra grande amiga, Luísa. ― Sim, o espírito da calhordice e da dissimulação! – Luísa bufou. – Dá...

Bruxa - Final

  . Despedida ― Antes de sairmos, quero que saiba uma coisa. ― disse Isabela olhando para a avó. ― Não ficarei aqui para sempre. Não irei abandoná-la, mas quero ir até Vandal. Ele irá me ensinar o que preciso. O que você me nega, por medo. ― Nego por não querer que você tenha o mesmo destino de sua mãe, embora seu temperamento seja diferente. Você pondera antes de agir, sua mãe era mais impulsiva. Só que está lidando com coisas muito poderosas, Isabela. ― Eu sei, mas não tenho medo. Eu quero o conhecimento. ― Não permita que o conhecimento a envolva de modo que você não consiga mais respirar e nem enxergar mais nada ao seu redor. ― Não vou. – Isabela garantiu. ― Talvez só aprisione algumas pessoas a correntes, mas quando cansar de brincar, eu paro. ― ela disse, bem humorada. Odete meneou a cabeça e saiu da casa de braços dados com a neta. Diogo apareceu com outro homem que trazia uma carroça. Diogo desmontou. ― Senhora... Senhorita... ― fez mesura. ― Todos estão ansiosos para vê-la...

Bruxa - 2

  . Milagre Dias depois, Diogo retornou com a rosa azul. Entregou na mão de Isabela. ― Foi a única que achei. ― Elas são raras mesmo. ― Uma só é o suficiente? Isso irá mesmo ajudar o meu irmão? ― quis saber Diogo, um pouco aflito. ― Vai desde que você siga a risca o que lhe disser. A poção deve ser usada da maneira correta, do contrário, não funciona. Vai lembrar de tudo que eu te disser? ― Sim. ― Ótimo. Agora pode ir. Volte amanhã e a poção estará pronta. Coragem, logo seu irmão estará saltitando por aí. ― Me dá a sua palavra? ― Palavra de bruxa. ­― ela brincou e Diogo rolou os olhos. ― Vou confiar em você, senhorita. Não me decepcione. ― Que honra. ― ela ironizou e ainda acenou, debochada, quando ele saiu da casa. ― Que garoto bobo. Vamos lá fazer o milagre da bruxa! Isabela usou as ervas para a poção. Consultou o antigo livro da avó e ficou o dia todo mexendo na panela. Ao cair da noite, a poção estava pronta e ela colocou em um recipiente, fechando-o. ― Prontinho. ― mostrou par...

Bruxa - 1

  Bruxas existem? Para o povo da aldeia sim. Para Isabela e Odete... talvez. Para Diogo, é a única maneira de fazer com que seu irmão volte a andar. "No creo en brujas, pero que las hay, las hay" . Escolha ― Dizem que você é uma bruxa. ― Você acha que eu sou? – Isabela lhe dirigiu um olhar misterioso. ― Você é? ― Diogo quis saber. ― Dizem que você cavalga à noite pelas águas turvas e invoca o mal em noites de lua cheia. Que você e a morte caminham juntas. ― Hum, a morte parece ser uma boa amiga. Ou quem sabe uma mãe, uma irmã... ― ela se divertia e mexia na panela no fogo. ― Dizem que você come o coração das pessoas para se manter viva. ― Depende do coração. Tem uns que nem saborosos são. ― ela disse, bem humorada. Pegou uma carne na panela com a colher de pau. No tempo de dantes, era tudo muito rústico naquela cidade e Isabela vivia com sua avó em uma casa humilde um pouco afastada da aldeia principal de onde viera Diogo. ― Quer? Pode experimentar. ― ela falou e Diogo ficou ...