1.
Meus pais adoravam descer a serra para aquelas típicas folgas de feriadão. Eles gostavam sempre de sair às 8:00hrs da manhã porque juravam que era o melhor horário para pegar a estrada mas sempre acabávamos sendo inseridos em algum engarrafamento. E quando é que não tem um engarrafamento em São Paulo?
Meu pai adorava colocar um pagodinho dos anos 90 (segundo ele, a melhor década da vida) para tocar enquanto o carro mal conseguia sair do lugar e eu ficava cantando com uma voz esganiçada que fazia minha mãe tapar as orelhas com as mãos e dizer que definitivamente meu futuro não estava na música.
Lembro que tudo era muito divertido. Mesmo com toda aquela dificuldade para apenas curtir uma mísera folga do dia-a-dia atribulado, mesmo que a gente chegasse cansados na pousada, só pensando em tomar um bom banho, comer alguma coisa e dormir, mesmo assim, era muito bom estar em família naqueles momentos. Era quando nos sentíamos mais unidos, eu acho.
Foi numa dessas saídas para mais um feriadão que tudo aconteceu.
Estava eu cantando muito mal um hit de Zeca Pagodinho, enquanto meu pai tamborilava no volante e minha mãe mexia no celular, quando senti um baque forte no carro. É uma das poucas coisas que a minha mente me deixa lembrar. O baque forte, meu corpo sendo jogado para frente, os gritos de desespero, o carro desgovernado, meu corpo batendo para lá e pra cá, como se fosse de mola, a diferença é que eu sentia muita dor em cada batida no meu corpo. E as pessoas estão erradas quando dizem que a gordura do corpo de uma pessoa acima do peso amortece o efeito da dor. Dói do mesmo jeito. Lembro também que tentava me agarrar à algo, mas não conseguia. Meu corpo não estava mais sob meu controle. Olhei para frente e o carro já estava capotando, meu mundo todo virando de cabeça pra baixo literalmente e lembro claramente que foi a última vez que pude ver e piscar os olhos antes de desmaiar.
*
Me disseram que acordei uma semana após o acidente. Meu traumatismo craniano foi tão forte que achavam que eu nem ia acordar.
Então eu acordei. Ouvi as vozes das pessoas, mas via nada além de um grande breu. Nada à frente, do lado, atrás... não importava para onde mexia minha cabeça e o meu corpo (muito dolorido ainda) , eu ainda permanecia envolta pela escuridão.
- Legal essa pegadinha de vocês, mas agora podem tirar o óculos escuro, por favor? Sei que sou linda, quase uma estrela de Hollywood, mas quero ver vocês além de ouvi-los, né? – falei, em tom de brincadeira.
Nunca na minha vida um silêncio havia sido tão pesado e tão forte quanto naquele momento. Ouvi um choro baixinho e pude distinguir que era da minha mãe. Ela beijou minha cabeça e eu franzi a testa sem entender, já que ninguém me explicava nada. Eu tinha catorze anos mas não era nenhuma idiota. Eu sabia que alguma coisa estava acontecendo, eu só não sabia o que era.
Foi então que o médico disse que iriam fazer uns exames, mas que eu ficasse calma. Eu odeio quando as pessoas me pedem calma quando eu estou calma, porque aí eu acabo ficando nervosa.
- O que vocês não estão me falando? Por favor, falem! – eu exclamo, nervosa.
- Vai ficar tudo bem, Bia, eu sei que vai. – minha mãe apertava a minha mão e chorava.
Óbvio que não estava tudo bem, né? Eu era alguma tonta por acaso? Porque ninguém me esclarecia nada, afinal, seja lá o que fosse que estava acontecendo, era comigo, caramba!
Então os médicos fizeram exames e em meio à isso, descobri que meu pai quase havia perdido a perna no acidente, mas que estava bem, só de repouso. E que todos estavam ansiosos para que ele e eu saíssemos do hospital e voltássemos logo para casa. Minha mãe prometeu até comprar um bolo de chocolate e olha que ela detestava doces.
Aí o médico resolveu enfim me falar o que raios estava acontecendo comigo. Resumidamente, a batida na minha cabeça foi tão forte que lesionou o nervo óptico a ponto de eu não poder mais enxergar.
É isso. Eu estava cega.
O médico falou um monte de termos técnicos e falou que fundamental que eu deveria comparecer a consultas oftalmológicas e neurológicas periodicamente para ver se o quadro poderia ou não evoluir, mas a verdade, a real mesmo, era que eu estava cega.
- Cega? Do tipo de andar com bengalinha? – ainda perguntei, achando que era uma piada de mau gosto. – Tipo, cega, cega mesmo? Do tipo não ver nada mais?
- Filha, ai, minha filha, nós estamos aqui com você... – a voz chorosa da minha mãe dizia enquanto segurava a minha mão com força.
- Nós? Nós quem? Eu não estou vendo nada! Olha aqui, doutor, eu sempre enxerguei e enxergo muito bem, até a linha na agulha pra minha mãe costurar eu vejo e coloco! Tenho a melhor visão lá de casa! Catorze anos de eficiência, não é pra qualquer um! Eu entrei naquele carro com a minha visão e quero ela de volta! Se vira! – exigi, batendo a mão na perna, irritada.
- Beatriz, entenda que a lesão no seu globo ocular... – começou o doutor.
- Não quero entender! – cortei, mais irritada ainda. – Mãe, faz alguma coisa! Mãe, a senhora não pode permitir isso!
- Filha, se eu pudesse trocar de lugar com você, eu trocaria, juro por Deus. – mamãe só fazia chorar, coitada.
- Se Deus existe, ele vai me devolver a minha visão. Se Ele não existe, então eu vou... eu vou... vou continuar... cega... – a última palavra saiu num fio de voz. – Mãe, a senhora bate tanto papo com Deus né? Faz ele me devolver a minha visão. Por favor. Por favor, mãe.
Minha mãe me abraçou, chorando ainda mais e eu não conseguia derramar uma só lágrima. Estava absurdamente perplexa e achava que tudo era uma piada de muito mau gosto.
Só uma coisa ficava piscando no meu cérebro: Cega. Eu estou cega.

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