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Eu.com - 3




 3.

― Eu falei com ele. – Luísa foi dizendo depois de sorver um pouco do milk shake. Olhou em redor da praça de alimentação para dar tempo de Karine digerir a informação. – Falei. Não resisti. Fui falar com o Lucas.

― Eu pedi pra você se afastar dele... – disse Karine numa voz mansa, mas já chateada. Porque todos resolveram desrespeitá-la de uma só vez?

― E me afastei. – garantiu Luísa. – Mas não podia ficar com a dúvida entalada na minha garganta. É um caso muito sério, Ka. Nós três éramos inseparáveis e de repente acontece tudo isso! Ninguém tá conseguindo entender realmente o que tá rolando!

― O que tá rolando sou eu sendo difamada pela internet afora! Minhas fotos foram parar até em sites pornográficos! Eu durmo a base de tranquilizantes! Deletei todas as minhas contas das redes sociais mas nem isso faz com que as pessoas esqueçam e me deixem em paz! Eu tenho medo até de sair de casa!

― Besteira, ninguém vai fazer nada com você na rua... – Luísa mordeu um pedaço do hambúrguer.

― Ah não? Eu estava numa lanchonete com a minha mãe quando um cara me abordou perguntou se eu era a Lady Kaira. Assim, na lata! – contou, indignada. – Me mostrou o celular e aquelas fotos nojentas! Fotos alteradas com photoshop, o meu rosto encaixado no corpo de uma mulher numa pose que... meu Deus! – ela bufou. ― Tentei ser educada, ele insistiu, aí gritamos com ele e ameaçamos chamar a polícia, só assim aquele individuo foi embora! Um homem que eu nunca vi na vida! Tem noção do alcance disso tudo?!

― Sinto muito, Ka. A coisa não devia ter tomado essa proporção... – Luísa bebeu mais um pouco. – Mas também, pra que você foi tirar aquelas fotos? O cerne do problema todo é esse!

― Ah pelo amor de Deus, Luísa, você também não! – Karine se queixou, já sem vontade de comer. – Pensei que você estava do meu lado!

― E estou! Sempre vou estar! Mas a internet não é um lugar confiável, é uma terra de ninguém, onde todo mundo acha que pode fazer o que quiser e nunca haverá uma punição! Ainda mais aqui no Brasil que não punem nem esses safados que roubam dinheiro público, gente que assalta, mata e estupra, imagina ter uma punição pra crime de internet!

Karine comprimiu os lábios com força. Esse era o seu maior medo. Lucas Alto não receber nenhum tipo de punição. Olhou para Luísa.

― O que ele te disse?

― Disse que rolava um clima entre vocês, que num dia desses de chuva você o procurou, vocês conversaram, beberam um pouco, mas não a ponto de você perder a lucidez... – pigarreou. – Daí, quando ele percebeu, vocês estavam se beijando e pra transar foi um pulo. Ele disse que topou porque você tinha dito dias antes que estava tudo terminado entre você e o João. O Lucas achou que você estava livre. Só que depois que fizeram sexo, você ficou estranha... Ele achou que você tinha se arrependido por vocês serem amigos e etc. Transar com um amigo de anos deve ser esquisito mesmo. – Luísa bebeu mais um pouco. – Daí ele quis te acalmar, falou que vocês não fizeram nada de errado, que os dois quiseram, que os dois eram livres, portanto ninguém estava sendo traído, aquelas coisas que se diz pra alguém não surtar. – Luísa bateu os ombros. – Só que foi aí que você jogou a bomba: que o João ainda era seu namorado e que você transou com o Lucas porque estava com raiva. O Lucas se sentiu usado. Ele ficou super chateado e num momento de raiva, fez o vídeo, mas se arrependeu. Ele até disse que se você o procurar, ele pede desculpas.

Karine estava pálida. Como Lucas podia mentir tão naturalmente assim? Teve vontade de socar a mesa, mas se conteve. Respirou fundo, ruidosamente, para tentar se acalmar.

― Eu tenho vontade de comprar um revólver e ir lá na casa do Lucas dar um tiro no meio da testa dele. – confessou.

― Karine, que horror! – Luísa arregalou os olhos. – Está certo que ele errou, mas...

― Errou? Só errou? Você fala como se ele tivesse escrito uma palavra errada no caderno e é só passar a borracha que tudo se corrige! Ele arruinou a minha vida!

― Não arruinou. Causou um caos, mas arruinar não. Dá pra recomeçar do zero. Dá um tempo, deixa a coisa esfriar e volta a ter perfil nas redes sociais, só que agora com mais cuidado.

― Eu nunca mais vou fazer perfil nenhum em rede social nenhuma! Por mim, a internet pode explodir!

― Nossa, não é pra tanto! Você não tá processando o Lucas? Então! Fez o certo, denunciou, foi na polícia, fez o B.O., os caras o acharam, agora ele vai ter que, no mínimo, te indenizar. Vocês não precisam nem se falar mais.

― É a última coisa que eu quero! – exclamou Karine, aborrecida.

― Então melhor ainda. Cada um pro seu lado. É uma pena que ele faz parte da vizinhança, uma hora vocês vão se topar por aí, mas... – Luísa suspirou e terminou de comer. – Não vai comer seu lanche?

― Luísa, você cheirou farofa estragada hoje? Você está agindo como se estivesse falando de um capítulo de uma novela, cacete! É a minha vida! – Karine bateu no peito. – Eu só penso nisso dia e noite há meses! Você sabe! Você foi quem mais me apoiou em denunciar o Lucas, em processá-lo e agora vem com essa!

― Que essa, Ka? – Luísa não entendeu. – Não estou contra você, eu só ouvi os dois lados da história! Achei o Lucas bem sincero...

― Você acreditou nessa papagaiada dele?! Eu nunca, ouviu, NUNCA, transei com ele!! Jamais!! Ele era meu amigo, quase um irmão!! Eu nunca falei nada do que ele te disse!! Isso é só um amontoado de mentiras!! Ele que é um psicopata mentiroso!!

― Ka, se rolou, você não precisa  ter vergonha de me contar. Eu não aprovo o que ele fez, aliás, dei o maior sermão no Lucas e...

― Vai se ferrar! – Karine se ergueu num pulo e saiu furiosa da praça de alimentação ignorando os gritos de Luísa, que chamava pela amiga.

Karine entrou em casa com os nervos em frangalhos. Nem sabia como tinha entrado no ônibus que a levaria até a sua residência. Tinha vontade de bater a cabeça contra a parede e desmaiar. Por dias. Meses. Anos. Até todo esse terror que virara a sua vida terminar. E pensar que antigamente ela reclamava que a sua vida era um marasmo só: da faculdade para o estágio, do estágio para casa, algumas vezes saindo com o namorado para comer uma pizza ou ir ao cinema. Agora não tinha um namorado, amigos, saíra do estágio, da faculdade e ficava quase que o tempo todo dentro de casa desconectada do mundo. Estava a ponto de ter um colapso.

Luís desceu a escada e olhou para a irmã mais velha.

― Papai cancelou a internet. Está feliz? – ele falou, chateado, pegou uma bola de futebol e saiu de casa irritado.

Karine deu um grito, o sangue sumiu das suas bochechas e ela desmaiou.

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