Bruxas existem?
Para o povo da aldeia sim.
Para Isabela e Odete... talvez.
Para Diogo, é a única maneira de fazer com que seu irmão volte a andar.
"No creo en brujas, pero que las hay, las hay"
. Escolha
― Dizem que você é uma bruxa.
― Você acha que eu sou? – Isabela lhe dirigiu um olhar misterioso.
― Você é? ― Diogo quis saber. ― Dizem que você cavalga à noite pelas águas turvas e invoca o mal em noites de lua cheia. Que você e a morte caminham juntas.
― Hum, a morte parece ser uma boa amiga. Ou quem sabe uma mãe, uma irmã... ― ela se divertia e mexia na panela no fogo.
― Dizem que você come o coração das pessoas para se manter viva.
― Depende do coração. Tem uns que nem saborosos são. ― ela disse, bem humorada. Pegou uma carne na panela com a colher de pau. No tempo de dantes, era tudo muito rústico naquela cidade e Isabela vivia com sua avó em uma casa humilde um pouco afastada da aldeia principal de onde viera Diogo. ― Quer? Pode experimentar. ― ela falou e Diogo ficou receoso. ― Quer saber de quem é? Não é um coração. Mas pode ser parte importante de alguém. Sabe que quando nós bruxas nos irritamos, costumamos picar as pessoas em pedacinhos e jogar num caldeirão.
Diogo olhou em redor e viu um caldeirão perto de outras panelas. Isabela estava se segurando para não rir do olhar do filho do líder da aldeia. Ele não sabia se acreditava ou ficava com medo. Por fim, decidiu-se por não se deixar impressionar.
― Não tenho mais idade para acreditar nessas bobagens. ― ele empinou o queixo. ― É só carne comum.
― Você quem está dizendo. ― ela deixou a dúvida no ar. ― O que traz o filho de Lohan, o Grande à minha humilde choupana? Eu vi que você deixou dois homens lá fora, armados, pro caso de eu ser mais perigosa do que você já imagina.
― Você é só uma mulher.
― Sou uma bruxa. ― ela estalou os dedos em frente aos olhos dele e uma fumaça vermelha surgiu rapidamente. Isabela começou a gargalhar ao vê-lo cair sentado em uma cadeira e ficar pálido. ― Você é como os outros! Tão crédulo! É quase como brincar com uma criança!
Diogo se ergueu.
― Não tem graça! O que você fez? Fez algum feitiço? Você é uma bruxa mesmo, não é?
― Se eu fosse, você já estaria morto. ― ela afirmou. ― O que quer aqui além de falar besteiras? ― ela colocou as mãos nos quadris.
― Hum. ― Diogo se recuperou e se ergueu. ― É sobre meu irmão, Mathaus. Dizem que você e sua avó conhecem todos os encantamentos. Mas sua avó falou que está velha demais e não quer nos ajudar. Papai até a...
― Ameaçou. ― completou Isabela, séria. ― Eu sei. Foi uma covardia. ― ela acusou.
― Meu pai não é covarde! ― ele protestou.
― Não? Um homem que ameaça uma senhora de mais de oitenta anos é o que? Ela poderia ser mãe dele! Não tem um pingo de respeito pelos mais velhos! Eles são mais sábios, mais vividos, tem mais experiência do que nós! E o que uma senhora que mal consegue andar poderia fazer contra Lohan e seus homens, me diga? Só porque acham que ela é uma bruxa, não quer dizer que ela seja!
― Em nome de meu pai, peço desculpas. Nós sempre vivemos pacificamente aqui. Nunca sequer pensamos em expulsá-las daqui, mesmo que alguns sugerissem isso.
― Eu sei que muitos adorariam nos ver queimando na fogueira. É o lugar de bruxas, não é? ― Isabela apagou o fogo e se serviu, colocando a comida numa vasilha de madeira. Sentou na cadeira, colocou a vasilha em cima da mesa e começou a comer com a colher de pau. ― Diga logo o que quer antes que eu te transforme num sapo.
― Hum. ― ele pigarreou. Não sabia se temia um ataque ou entendia as palavras de Isabela como bravatas. Ela tinha longos cabelos negros, lisos, uma pele tão branca que beirava à palidez, olhos escuros e oblíquos, mas seu vestido era como o de qualquer camponesa. Mesmo naquela casa não havia nada que lhe pudesse remeter a uma bruxa como o povo contava em histórias. ― Meu irmão, Mathaus, ele é aleijado. Não consegue andar e temos que carregá-lo. É um menino de oito anos que não consegue sequer brincar com as outras crianças. Tem tanta vida e tanta alegria, mas está condenado a viver para sempre entrevado em uma cama, dependendo dos outros para se locomover. Não parece justo.
― A vida não é justa. ― ela falou, friamente e continuou a comer.
― Mas você pode ajudar.
Isabela revirou os olhos e olhou para o rapaz cujos olhos castanhos como os do pai, a olhava aflito.
― Ao contrário do que falam, não tenho poderes. Se eu pudesse mesmo fazer qualquer coisa com um estalar de dedos, você não acha que eu já estaria longe daqui? Viveria como uma rainha. E não ficaria ouvindo as tolices que saem da boca dessa gente ignorante da aldeia. Minha avó jamais passaria fome. E meus pais ainda estariam vivos. ― ela suspirou levemente. ― Viu? A vida não é fácil pra ninguém.
― Sinto pelos seus pais, mas você ainda pode ajudar outras pessoas. Sua avó me disse que você poderia fazer uma poção para ajudar Mathaus. Eu acreditei, por isso vim até aqui.
― Onde você a encontrou? Faz dois dias que não a vejo.
― Ela estava próxima ao Templo das Virgens.
Isabela deu uma risadinha amarga.
― É, ela está pensando em me mandar pra lá...
― E você não quer ir? ― ele perguntou, curioso.
― Eu prefiro fazer sacrifícios humanos para a lua. ― ela debochou e ele olhou para o teto, exasperado. ― Eu não faço caridade, garoto. O que eu ganharia ajudando o seu irmão?
― Primeiro, eu não sou um garoto...
― Uma espada na cintura e ter cabelo no peito não te torna um homem. ― ela afirmou.
― Você quer uma prova do quanto eu sou homem? ― ele perguntou, ofendido.
― Eu não preciso e nem faço questão. Ao contrário de você, eu não vivo, sobrevivo. E pra sobreviver, preciso de algo mais do que um garoto mimado que acha que pode me causar qualquer tipo de impressão. ― ela falou e eles trocaram olhares hostis. ― Eu faço a poção se você me der algo em troca. Algo que eu realmente possa usar. ― fez uma pausa e não resistiu em espicaça-lo. ― Que tal a sua alma? Me ajudaria a ficar bela e jovem por mais alguns anos. ― ela mexeu no cabelo.
― Não faço esse tipo de trato. ― ele disse, sério e ela deu um sorriso de canto de boca. ― Eu posso falar com a sua avó e não deixar que você vá para o Templo das Virgens.
― Não, nisso eu mesma dou um jeito. Me dê algo mais concreto.
― Posso lhe dar moedas de ouro. ― ele tirou uma sacolinha da cintura e colocou em cima da mesa. Isabela abriu e viu moedas de ouro, que ela testou, mordendo uma. ― Tem mais de onde vieram essas. Entenda como um pagamento adiantado. Mas quero ter garantias de que você irá fazer meu irmão voltar a andar.
― Não faço milagres. Não sou Deus. ― ela afirmou.
― Nem tem pacto com o diabo? – ele perguntou, erguendo uma sobrancelha.
Isabela sorriu debochadamente.
― Se eu tivesse, você não me procuraria. Não pra salvar alguém. ― ela disse acertadamente. Diogo ficou calado. ― Eu faço a poção pro seu irmãozinho. Eu faria mesmo que você não me desse nada. ― ela falou, surpreendendo-o e se ergueu, indo mexer nas ervas que dispunha.
― Era um teste?
― Queria ver até onde você iria pelo seu irmão.
― Eu faria qualquer coisa por ele. ― garantiu Diogo. ― É meu único irmão.
― Família às vezes nos aborrece, mas quando a situação fica difícil, lembramos o quão é importante ter alguém. ― ela afirmou. ― Me falta uma flor. Uma rosa azul que só nasce no lado oeste da aldeia, nas montanhas. Vai demorar até que eu retorne com ela.
― Eu vou. Eu pego a rosa azul e trago em menos tempo. ― ele garantiu. ― Não é uma armadilha, é?
― Te mandar pra morte? Você mesmo disse que eu caminho com ela... ― Isabela deu um sorriso misterioso. ― Quem sabe o preço da recuperação de seu irmão seja um pedaço de você? Está disposto a pagar um preço tão caro?
― Se ele voltar a andar, sim. ― ele afirmou, sem titubear.
Isabela sorriu e lhe deu um tapinha no braço.
― Vá com Deus e volte inteiro. Seu irmão irá precisar de você. Vá.
Diogo fez uma mesura e saiu dali. Isabela olhou para o teto e depois abriu uma porta nos fundos da casa. Sua avó, Odete, entrou tranquilamente.
― Em cada situação que a senhora me coloca... O que foi isso? Um teste? Sabe que eu detesto aquela gente da aldeia. Eles querem nos ver queimando vivas.
― Eu sei. ― Odete afirmou e sentou na cadeira. ― Meus velhos ossos estão cansados, Isabela. Já não sou a mesma de antes. Meu tempo nessa Terra está chegando ao fim. É preciso que você continue o legado da família. E no Templo das Virgens você estará protegida.
― Eu sei me cuidar muito bem sozinha, obrigada.
― Nem todos terão medo de você, Isabela. E alguns tentarão te atacar apesar do medo. Os seres humanos são imprevisíveis.
― Eu também posso ser. ― Isabela disse, séria. ― Eu deveria fazer uma poção para matar a todos eles. Por causa de Lohan meus pais morreram. Ele quem falou que meus pais eram bruxos e eles foram queimados em praça pública na capital.
― Lohan foi ignorante, mas não maldoso. Falou sem pensar e sequer sabe o porquê da minha filha e do meu genro terem partido desse plano. Já tinha chegado a hora deles, Isabela. Rita e Orlando cumpriram a sua missão. Foi dolorosa a perda, mas ela iria acontecer de qualquer forma.
― Lá vem a senhora com essa conversa. Eu não acredito em destino.
― Então acredite em escolhas. ― Odete olhou firmemente para a neta. ― A sua escolha poderá levar à paz ou à guerra. Pense nisso. ― Odete se ergueu. ― Agora vou me deitar, estou cansada.
Odete foi para o quarto e Isabela cruzou os braços e ficou pensativa.

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