4.
Fora só por um minuto. Logo, Karine acordou com dor de cabeça. Não havia ninguém em casa. Era assim que Karine se sentia. Solitária e abandonada. Correu para o banheiro e tentou vomitar em vão. Decidiu tomar um bom banho quente, trocou de roupa e deitou-se na cama. Àquela hora estaria na internet conversando com amigos ou vendo alguma coisa inútil em páginas de redes sociais ao invés de estar estudando. Agora nem estudo ela tinha. Não até o próximo semestre, que era quando voltaria às aulas na nova faculdade. Fora uma sorte conseguir uma vaga.
Ficou deitada na cama olhando para o teto até receber uma mensagem de Luísa. Karine havia trocado até o número de seu celular por não aguentar mais tanto assédio, mas informara o novo número para aquela que considerava sua melhor amiga. Mas estava começando a descobrir que amigos não existiam.
Karine hesitou em atender a chamada, mas o fez.
― Oi. – disse secamente.
― Ka, eu sei que você está passando por um grande estresse, mas tenta relaxar. Assim, você vai explodir! Não estou contra você, imagina! O que o Lucas fez foi reprovável, coisa de garoto infantil que não sabe receber um não!
― Ele não recebeu um não, até porque nunca ouve algum tipo de conversa entre nós em que eu dissesse não para uma investida vinda dele.
― Nunca?
― Não. – Karine falou, impaciente. – Se você duvida tanto de mim, pra que fica me ligando?
― Ai, credo, Ka! Não duvido de você, não alopra! Mas tem que ter uma explicação pra tudo isso! O Lucas não ia surtar do nada! Tá, ok, eu já entendi que ele mentiu sobre vocês terem transado, mas será que você não falou alguma coisa, não deu a entender, mesmo sem querer, que poderia rolar algo entre os dois e daí quando ele viu que não, que era coisa da cabeça dele, acabou surtando e fazendo esse papelão?
― Não, não e não! Quantos nãos eu vou ter que falar, Luísa?! Francamente! É melhor a gente ficar sem se falar por um tempo!
― Ka, agora você quem está sendo infantil. – criticou Luísa. – Estou tentando racionalizar as coisas.
― Aí é que tá. Não tem como racionalizar. Não é um problema de matemática onde a gente calcula o seno e o cosseno. Não é assim. É a minha vida. E ela virou uma bagunça. Eu perdi tudo, inclusive o respeito de praticamente todo mundo. Eu sou a bandida da história. Essa é a realidade. Eu quem estou sendo apedrejada. Até mesmo na delegacia de crimes virtuais o delegado só faltou falar que eu provoquei. Desse jeitinho aí que você está falando. Se eu não fiz alguma insinuação sem querer. – ela fez uma pausa. – É isso. Eu sou a culpada. Se eu fosse um homem, ninguém ficaria achando se eu dei mole. Mas eu sou mulher, né, portanto sou burra, provocadora, estúpida, piranha! É isso que eu sou!
― Ai, Ka, para! Você tá generalizando tudo, caramba! Age como se todos estivessem contra você e não por aí! Eu acho que você deveria relaxar um pouco, viajar, sei lá, porque desse jeito tá difícil! Já faz meses! Meses que tudo aconteceu, o Lucas já foi identificado, o vídeo foi retirado do ar, só falta a página da Lady Kaira e...
― Que pode ter sido ele quem fez!
― Não foi. – assegurou Luísa.
― Quem garante?
― Ele me falou e eu acreditei. Ele só fez o vídeo e distribuiu as fotos, mas se arrependeu. Todo mundo comete erros, Ka. Todos. Até você é passível deles. Não fica atirando pedras. Se você não quiser mais ver o Lucas na sua vida, é um direito seu, mas ficar aloprando com todo mundo por causa disso é demais! Você tá surtando! Nem parece mais a mesma Karine que eu conheço!
― É porque eu não sou mesmo. – afirmou Karine.
E então Karine não quis falar mais nada. Ficou em silêncio, olhando pro nada até Luísa dar um suspiro pesado e entender que estava sobrando ali.
― Eu vou nessa. Pensa no que eu te disse. Você só tem 20 anos. Não faz de tudo uma tragédia grega.
Luísa desligou o telefone e Karine colocou as mãos no rosto.

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