. Despedida
― Antes de sairmos, quero que saiba uma coisa. ― disse Isabela olhando para a avó. ― Não ficarei aqui para sempre. Não irei abandoná-la, mas quero ir até Vandal. Ele irá me ensinar o que preciso. O que você me nega, por medo.
― Nego por não querer que você tenha o mesmo destino de sua mãe, embora seu temperamento seja diferente. Você pondera antes de agir, sua mãe era mais impulsiva. Só que está lidando com coisas muito poderosas, Isabela.
― Eu sei, mas não tenho medo. Eu quero o conhecimento.
― Não permita que o conhecimento a envolva de modo que você não consiga mais respirar e nem enxergar mais nada ao seu redor.
― Não vou. – Isabela garantiu. ― Talvez só aprisione algumas pessoas a correntes, mas quando cansar de brincar, eu paro. ― ela disse, bem humorada.
Odete meneou a cabeça e saiu da casa de braços dados com a neta. Diogo apareceu com outro homem que trazia uma carroça. Diogo desmontou.
― Senhora... Senhorita... ― fez mesura. ― Todos estão ansiosos para vê-las.
― Hoje é noite de lua cheia. Vamos nos divertir. ― falou Isabela com um olhar misterioso, deixando o carroceiro temeroso. ― A lua me inspira. Já sinto o cheiro de sangue, suor e lágrimas.
Diogo olhou para o carroceiro.
― Não leve à sério, ela está falando isso só para caçoar de nós.
― Quem sabe? ― Isabela ergueu uma sobrancelha. Foi ajudada a subir na carroça assim como a avó. ― Já devo até ter jogado um feitiço em você, Diogo, que não perceberá o perigo até que ele o lace e devore. ― movimentou os dedos freneticamente.
― Senhor... – o carroceiro falou, com medo.
― Acalme-se. Está tudo bem. ― garantiu. ― Vamos.
*
A festa e o banquete foram melhores do que Isabela poderia esperar. Ela observava as pessoas rirem, dançarem, cantarem e as crianças brincarem. Ganhara até um abraço apertado de Mathaus. Lohan apertara sua mão, mas Isabel viu pelo olhar dele que até mesmo o grande líder temia as duas supostas bruxas. Todos temem aquilo que não compreendem.
Isabela sorriu ao ver Odete sentada, sendo servida por aldeãs e suspirou.
― Pensando no próximo feitiço? ― Diogo perguntou, se aproximando.
― Pensando em quantas vidas desperdiçadas. Poderiam estar no meu caldeirão agora.
― Você não cansa mesmo. ― Diogo achou graça.
― De fazer maldades? Jamais.
― Você fez com que meu irmão voltasse a andar. ― ele observou Mathaus brincando com as outras crianças.
― Ele apenas despertou, somente isso. ― ela afirmou. Resolve provocar. ― E quem garante que eu não cobre um preço bem alto por isso? O seu coração é jovem, ainda não desisti de comê-lo. Preciso manter a minha juventude.
― Meu coração está muito bem onde está, obrigado. ― ele bebeu um pouco.
Isabela percebeu uma aldeã que olhava atentamente para eles.
― É a sua namoradinha? É bonita. Bonita demais pra você.
― Meu pai pensa em me casar em breve.
― É esperado, é preciso garantir a linhagem. Ela lhe dará filhos fortes e bonitos apesar dessa sua aparência. ― implicou.
― Não sou tão feio assim, de noite sou até aprazível. ― ele brincou e Isabela deu uma risadinha. ― Viu? Eu também sei falar palavras espirituosas.
― Precisa de mais treino, mas está indo bem. ― Isabela sorriu. ― Seu pai o está preparando para ser o líder dessa aldeia... Mal sabe ele que você governará mais do que isso.
― É o que você vê? ― ele inquiriu.
― É o que eu sei. ― ela afirmou, séria e depois sorriu. ― Deveria cobrar por previsões e depois fugir com as moedas quando não se realizassem. Será que pessoas podem ganhar dinheiro iludindo os outros? As pessoas são tão crédulas, principalmente aquelas que se acham muito espertas. Sempre haverá alguém mais esperto.
― É só você fazer surgir aquela fumaça vermelha que muita gente fará até as necessidades na roupa de tanto medo.
Isabela riu com gosto.
― É um belo truque, de fato.
― Um truque ou uma verdade?
― Quem sabe? Não tente descobrir tudo. A graça está em não saber ao certo. Se desvendar o segredo, perde o encanto. E de encantamento eu entendo. ― ela piscou.
― Nunca sei quando levá-la à sério.
― É porque você leva tudo à sério demais. Relaxe. A vida é muito curta para vivermos tensos esperando a próxima queda. Anime-se. Você irá casar com aquela mocinha graciosa de cabelos cacheados que não tira os olhos de nós e será o líder que se espera. Mas não se esqueça de me ofertar um dos seus filhos. Gosto de crianças gordas ao molho. ― ela sorriu, sapeca.
― Vou pensar no seu caso. ― ele disse, bem humorado.
*
Odete e Isabela voltaram para casa e a neta ajudou a avó a se deitar. Odete sorriu e segurou as mãos da moça.
― Eu precisarei ir, Isabela. Que você fique em paz e se cuide. Pense em tudo que lhe disse e ensinei.
― A senhora volta? ― perguntou Isabela, triste.
― Não. É preciso que a jornada seja sua. Já a segurei demais. Irei para um lugar seguro, não se preocupe. Minha mente e meu coração estarão com você. Sei que irá fazer o que é certo, criança. ― fez uma pausa. ― E quando minha hora chegar, irei me unir à sua mãe.
Isabela sentiu os olhos arderem em possíveis lágrimas que ela não derramou.
― Então é um adeus.
― É um até breve, Isabela. Há lugares reservados para nós longe daqui. Você só irá demorar um pouco mais para nos encontrar. ― Odete afirmou e Isabela mordeu o lábio, receosa. ― Não tema.
― Não queria que a senhora fosse... Sozinha vai ser mais difícil.
― Será. Mas não será impossível. E de uma forma diferente, estarei com você, minha neta querida.
Isabela assentiu, conformada e beijou a cabeça da avó. Odete sabia mais do que ela porque já vivera coisas pelas quais Isabela ainda passaria.
Só então Isabela reparou nos cabelos brancos da avó e no quanto Odete parecia cansada. Odete usaria suas últimas forças para sair dali como Rita e Orlando fizeram, para que então Isabela pudesse cumprir o seu destino. Isabela velou o sono da avó e nem dormiu naquela noite pensando no que a vida lhe reservava.
*
Dias depois, Isabela olhou uma última vez para a casa, já vazia e fechou a porta. Não mais voltaria para lá. Viu Diogo aparecer montado no cavalo.
― Não me diga que veio me buscar? ― brincou Isabela. ― Não deveria estar em um alazão branco? O seu é castanho e não parece saído de histórias de contos de fadas.
― Ah, eu não tinha outro mais apropriado, mil perdões. ― ele fingiu lamentar e apeou. ― Meu pai me mandou aqui. Ele quer propor que você e sua avó se juntem à nós na aldeia.
― Minha avó não está mais aqui.
― Como assim? ― ele franziu a testa.
― Não está. Ela se foi. Mas estará sempre comigo. Minhas lágrimas a guiaram para um lugar melhor.
― Ah... Eu... Eu sinto muito... Acho... Você me confunde.
― Que bom, espero que continue assim. ― ela disse, divertida. Ajeitou suas coisas na carroça. ― Foi bom conhecer você, Diogo. Que seu coração permaneça bom.
― Pensei que você iria querer devorá-lo. –ele a ajudou a subir na carroça.
― Quem sabe outro dia. Ainda estou em plena forma, mas quando estiver me sentindo fraca, apareço de noite numa nuvem de fumaça e arranco o seu coração com a minha mão! Trate de conservar bem o meu alimento! –sacudiu o dedo, brincalhona.
― Me esforçarei para isso. ― ele disse, tranquilo. ― Vai para muito longe?
― Não tanto. Não chore por mim. Você irá superar a minha perda. ― ela colocou a mão no peito teatralmente.
― Folgo em saber disso. ― ele ironizou. ― Não sei como vivi esse tempo todo sem você.
― Nem eu! ― ela exclamou. ― Tente não morrer! Adeus! Ou melhor, até breve! Volto quando estiver mais bruxa do que nunca!
― Talvez precisemos dos seus préstimos quando retornar.
― Guarde o seu ouro então, meu preço é caro!
Isabela acenou e fez o cavalo da carroça partir. Diogo observou de longe. Jamais conhecera alguém tão enigmática e ao mesmo tempo tão transparente quanto Isabela.
FIM

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