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Sobre a finitude da vida

 




Ainda um pouco chocada como em constatar o óbvio: a vida é incrivelmente fácil de chegar ao seu término de maneira abrupta e sem nenhum aviso prévio.

Não tem despedida, a última palavra, o último beijo, o último conselho, o último aviso.

Nada.

Ela apenas termina e é isso.

Lide com a realidade.

Não é nada como nas novelas, nos livros, na nossa imaginação.

A vida simplesmente se esvai.

Num dia, a vizinha está inconformada que a única filha se envolveu com um carinha, engravidou, ele pulou fora e a mãe não sabe em quem jogar a culpa pelo surgimento de um neto não planejado. A única coisa que a mãe sabe é que será avó e que não fora isso que ela planejara para a única menina que teve em meio à quatro filhos homens.

A vida mostrando que ela se multiplica doa a quem doer, gostando ou não, é isso aí.

Aí no mês seguinte essa mesma mãe nunca chegará a ser avó porque um infarto fulminante a carregará para o outro lado da vida eterna.

Como será a vida do outro lado?

Existe vida?

Não como a conhecemos, certamente, mas algo existe.

Um julgamento talvez?

Um bem-vindo?

Um ‘ainda bem que você chegou e agora poderá gozar enfim de uma paz que talvez você não tenha tido em sua vida terrena?’

Ou um esquecimento total e completo de tudo que fora vivido na Terra? (o que para alguns não seria nada ruim, visto que a vida, como diz o povo, pode ser bem madrasta quando quer. Esquecer seria uma benção).

Mas é isso.

A vida e seu ciclo sem fim.

Nascer, viver, ter boletos para pagar, vontade de xingar ou beijar alguém, crescer, multiplicar (talvez não, quem sabe) e morrer.

E mesmo sabendo de tudo isso, ainda ficamos chocados com o ponto final da história daqueles que conhecemos (ou às vezes nem conhecemos, só ouvimos falar, mas sabemos que sua história encontrou o the end e agora cabe aos seus entes queridos lidarem com a perda).

Por que o ser humano não sabe lidar com a perda.

A perda definitiva.

Não importa o que se acredite como é o lado de lá.

O fato é que, aqui, quando se vai, se vai para sempre.

Mesmo que ajam filhos, netos, livros…

A pessoa em si, aquele ser único, se foi.

E não há nada que se possa fazer sobre isso, só pensar sobre a única coisa que é certa nessa vida.

Iremos todos morrer.


fim

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