. Milagre
Dias depois, Diogo retornou com a rosa azul. Entregou na mão de Isabela.
― Foi a única que achei.
― Elas são raras mesmo.
― Uma só é o suficiente? Isso irá mesmo ajudar o meu irmão? ― quis saber Diogo, um pouco aflito.
― Vai desde que você siga a risca o que lhe disser. A poção deve ser usada da maneira correta, do contrário, não funciona. Vai lembrar de tudo que eu te disser?
― Sim.
― Ótimo. Agora pode ir. Volte amanhã e a poção estará pronta. Coragem, logo seu irmão estará saltitando por aí.
― Me dá a sua palavra?
― Palavra de bruxa. ― ela brincou e Diogo rolou os olhos.
― Vou confiar em você, senhorita. Não me decepcione.
― Que honra. ― ela ironizou e ainda acenou, debochada, quando ele saiu da casa. ― Que garoto bobo. Vamos lá fazer o milagre da bruxa!
Isabela usou as ervas para a poção. Consultou o antigo livro da avó e ficou o dia todo mexendo na panela. Ao cair da noite, a poção estava pronta e ela colocou em um recipiente, fechando-o.
― Prontinho. ― mostrou para avó, que jantava uma sopa feita pela neta.
― Não colocou nenhum ingrediente errado, não é?
― Pensei em colocar algo que fizesse o menino virar uma rã, mas já temos rãs o suficiente por aqui. ― Isabela brincou. ― Quem sabe eu não esteja fazendo isso só pra beber o sangue da aldeia toda depois? A magia sempre cobra um preço.
― A magia usada de forma errada cobra preços errados. E você iria se empanturrar a toa do sangue contaminado daquela gente. ― disse Odete, bebendo calmamente sua sopa.
Isabel riu e sentou na cadeira, cansada. Esticou o corpo.
― Eles acreditam mesmo que sou uma bruxa. Deixe que pensem assim. Eu acho que tem até certo charme. ― mexeu no cabelo. ― Com sorte e se o Mathaus voltar a andar, quem sabe eles não me adorem como uma deusa e me mantenham alimentada até o resto da vida?
― É um risco que você pode correr. Agora tome a sua sopa. ― empurrou uma vasilha para a neta.
Isabela sorriu e começou a jantar.
*
― Aqui está. ― Isabela entregou a poção à Diogo. ― Entendeu tudo que eu disse, não é? As recomendações são importantes.
― Entendi sim. Mas pensei que Mathaus tomaria a poção e iria andar logo. Não achava que fosse demorar duas semanas.
― Eu já lhe disse que não sou Deus. Eu não estalo os dedos e as coisas acontecem. ― ela estalou os dedos e a fumaça vermelha surgiu, assustando Diogo. Isabela riu, divertida. ― Acalme-se.
― Às vezes penso que realmente é uma bruxa. Como fez isso?
― Não se revela um segredo a um estranho. ― Isabela afirmou. ― Mas não vai crescer um terceiro braço em você, pode ficar tranquilo. Agora vá.
― Se Mathaus se recuperar, eu retorno com o restante do pagamento.
― E se ele não melhorar você volta aqui para me matar. ― ela disse acertadamente.
― Eu não disse isso.
― Não é preciso.
Os dois ficaram tensos e Diogo guardou a poção.
― Eu estou confiando em você.
― Confie mais em si mesmo do que nos outros. Não se deve confiar em ninguém de olhos fechados. ― ela disse de maneira soturna. ― Agora vá. Ainda estou pensando que tipo de sapo você daria. ― falou, bem humorada.
Diogo torceu a boca, fez uma mesura e saiu. Isabela fechou a porta e ficou séria.
*
Semanas depois, Isabela estava estendendo a roupa para secar quando viu Diogo se aproximar e descer do cavalo. Dessa vez, ele estava só.
― Oh, pensei que você não viria mais atrás dos meus belos olhos. ― ela debochou. ― Deixe que eu adivinhe: você ficou pensando em mim durante todos esses dias e veio me dar o beijo do amor verdadeiro.
― Na verdade vim lhe dar o resto do pagamento. ― ele disse, lhe estendendo a sacola, que ela pegou. ― Mas posso lhe dar o beijo se faz tanta questão.
Isabela abriu a sacola e riu.
― Eu sou uma moça de família, o que pensa ao me falar coisas indecorosas assim? ― disse, bem humorada. ― Suponho que seu irmão esteja bem. Não estou vendo pessoas e tochas atrás de você.
― Foi um milagre. Meu pai lhe agradece muito e se for de seu agrado, pede que você e sua avó vão até a aldeia onde faremos um banquete em sua homenagem. É como se Mathaus tivesse renascido.
― Não renasceu. Só acreditou em si mesmo. Aquela poção não tinha nada além de ervas. Aquilo não levantaria nem um bêbado. Ele só precisava de estímulo. Acreditar em si mesmo faz uma grande diferença.
Isabela viu pela expressão de Diogo que ele não acreditou que a poção não fosse mágica. Preferiu não explicar. Deixaria ele pensar o que quisesse.
― De qualquer forma, estamos agradecidos.
― De nada.
― Vá ao banquete. Será uma honra para nós agradecer por tudo que fizeram.
― Eu não fiz nada, já disse. Seu irmão só precisava de um empurrãozinho.
― Meu pai me recomendou que eu não saísse daqui sem convencer a você e sua avó. Sei que vocês não tem desconfiança em nosso povo, que acha que as odiamos, mas não é verdade.
― Não é agora. ― ela afirmou.
― Só queremos agradecer. Por favor. ― ele pediu. ― É importante especialmente para Mathaus. Ele está muito feliz. Ele queria vir comigo, mas como suas pernas ainda não estão firmes, disse que você iria conhecê-lo pessoalmente.
― Você faz promessas demais em nome de alguém que mal conhece. ― ela observou. ― Mas eu vou. Estou precisando mesmo me banhar nas lágrimas de uma criança para renovar o meu poder.
Diogo acreditou por um segundo e depois revirou os olhos. Isabela segurou o riso.
― Você faz isso só pra me ver sem ação. Gosta que as pessoas pensem que não é algo que não é.
― E quem disse que não sou? Você se arriscou em vir aqui sozinho.
― Vai me transformar em um sapo? ― ele cruzou os braços e a encarou.
Isabela mordeu o lábio inferior e o olhou de alto a baixo. Era um homem alto e forte, apesar de ser bem jovem. Calculava que ele deveria ter uns dezoito anos, se tanto.
― Estou precisando de montaria. Estalaria os dedos e você viraria o meu cavalo. Parece ser bem forte.
― Eu sou. Eu treino. Tenho que estar preparado para qualquer batalha de uma possível invasão. Outras aldeias próximas a nossa já foram invadidas. É preciso proteger o nosso povo.
― Fala como um líder. Você será um grande líder, Diogo. É pacífico e pensa no bem de todos antes mesmo do seu. ― ela disse e ele sentiu um arrepio diante do olhar enigmático dela. ― Mas seu irmão terá um reinado de sangue se seguir o instinto mais primário dele. O ódio e a violência guiará Mathaus em sua jornada. Um é o vento e o outro é a tempestade. Mas juntos poderão achar o equilíbrio.
― Você... Você está vendo isso? ― ele quis saber.
Isabela voltou ao normal e riu.
― Deve ser o meu terceiro olho! Onde será que o deixei? ― fingiu procurar no chão.
― Porque você nunca fala sério? ― ele se queixou. ― Como posso saber que está falando a verdade ou só caçoando de mim?
― Você saberá no momento certo. ― ela afirmou e depois sorriu. ― Agora vá. Diga ao seu irmão que irei comparecer ao banquete porque estou com fome. Fazer feitiços gasta a minha energia. Vocês poderiam reservar uma criançinha para que eu a devore pela manhã. – piscou, sapeca.
― Nossas crianças não são tão apetitosas assim, lamento. ― ele ironizou. ― Venho buscá-las à noite. Com licença.
Diogo montou no cavalo e foi embora. Odete surgiu atrás de Isabela, que virou-se para olhá-la.
― Fez bem, minha filha. Os irmãos irão se unir mais e muito sangue será poupado por isso.
― Espero mesmo que sim. Ainda estou tentada a envenenar Lohan.
― Lohan é apenas aquele que criou futuros reis. Ele não irá governar. Muita água passará pelo rio até que tudo se encaixe em seu devido lugar. Uma pena que não estarei aqui para ver.
― É isso que você vê no destino deles? Parece tão tedioso. Que tudo já esteja escrito e nada possa mudar isso.
― As escolhas os levarão aos seus caminhos. Assim como as suas também. Você irá traçar o rumo que sua vida irá tomar.
― Esse é o seu modo de dizer que não preciso ir para o Templo das Virgens?
― Eu só penso no seu bem e numa vida segura para você. Uma vida sem atritos e tribulações. Mas infelizmente eu não posso decidir por você, Isabela.
― Se eu acreditasse em destino, escolheria o caminho mais fácil. O caminho no qual você quer me guiar. ― fez uma pausa e deu o braço à avó. ― Vamos. Precisamos ficar lindas, diabólicas e assustadoras para matar pelo menos metade daquela gente da aldeia de susto. O lado positivo é que não terei que cozinhar hoje à noite.
Odete achou graça e depois segurou o braço da neta com força.
― Isabela, é quando achamos que podemos domar o destino, que ele nos leva até o ponto em que deseja. Não se foge da vida. Ela tem seus próprios planos para nós. Lembre-se disso.
Isabela apenas olhou para a avó e ficou calada.

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