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Blink- 3





 3.

 

- O que você vai querer no seu aniversário de quinze anos? – minha prima Olívia me perguntou, enquanto eu treinava ler em braile.

- Nada que me venha à cabeça.

Na verdade, havia uma coisa que eu queria muito mas a vida não me daria de volta, então para não fazer as pessoas ficarem tristes ou chorarem, eu evitava falar o quanto sentia falta da minha visão.

- Estava pensando no que comprar pra você, até pensei nos DVDs daquela série, mas... – ela parou ao ver que entraria em terreno perigoso. Não iria comprar porque lembrou que não podia ver. – Sei lá, aí pensei em te perguntar.

- Uma caixa de sorvete de morango seria uma boa. Sempre gostei muito de morango. – falo por falar.

- Sorvete de morango, anotado. Mas vou tentar algo mais criativo, prometo.

Eu apenas dei um sorrisinho e deixei pra lá. As minhas conversas com Olívia ficaram muito limitadas depois do acidente. Ela, como todo mundo da minha família, estavam sempre pisando em ovos para falar comigo sobre qualquer coisa que envolvesse enxergar. Ou seja, basicamente 99% das coisas do cotidiano, que pareciam banais, mas ao falar comigo, se tornavam coisas de outro mundo.

- Eu não quero que tenham pena de mim. – comentei com minha mãe, que arrumava o meu armário.

- Ninguém tem pena de você.

- Tem sim. Todos sempre me tratam como se pisassem uma possível mina terrestre. Tem gente que nem tem mais assunto comigo. É ridículo. Sim, eu sou uma deficiente visual mas não estou morta. Posso conversar com as pessoas normalmente, poxa.

- Acho que as pessoas precisam de um... de um tempo para se adaptar... elas não fazem por mal, Bia. – disse a minha sempre conciliatória mãe.

- Você teve que deixar seu trabalho por minha causa...

- Besteira, eu nem gostava de trabalhar naquele escritório.

- E meu pai nem passa perto de um carro.

- Ele está progredindo na terapia, é só questão de tempo. Há um tempo determinado para tudo, já diz a Bíblia.

- Eu não acredito em Deus. – disse secamente.

- Bia! – ela exclamou, escandalizada. – Por quê?

- Porque se Deus existisse mesmo, ele não teria deixado que tudo isso acontecesse. O cara que bateu no nosso carro pagou uma multa e está livre, leve e solto. Mal teve um arranhão. – disse, magoada. – Meu pai está traumatizado, você sem emprego e eu sem visão. Que Deus é esse, me diz? Que Deus esse que permite isso? Não diziam que Ele era bom? Não vejo bondade nisso.

- Ah, Bia... – minha mãe suspirou pesadamente. – Existe uma coisa chamada livre arbítrio. – ela sentou do meu lado na cama e segurou minha mão. – As pessoas tem a mania de culpar de Deus pelas decisões erradas delas. Aquele homem escolheu beber, entrar num carro e lidar com a possibilidade de causar um acidente. É claro que nem seu pai, nem você tem culpa. Mas toda decisão gera uma consequência. Talvez Deus tenha planos para você, que você nem imagine. Eu acredito piamente que nada acontece por acaso. Há um propósito para tudo. Você pode não perceber agora, mas lá na frente você vai entender.

- Eu duvido. – digo, descrente.

- Bia, a vida é o maior presente que podemos receber. Não gaste ela se amargurando. Viva. Estar sem visão pode limitar algumas coisas, mas não vai te impedir de viver e aproveitar. Pra tudo há um jeito. – ela fez uma pausa. – Quando eu soube da sua condição, eu me desesperei sim, chorei muito, mas eu pensei: minha filha está viva. Contra todos os prognósticos, ela está viva. Pensaram que você iria ficar em estado vegetativo, sabia? Mas está viva. Pra mim é uma grande prova que Deus existe. Eu não perdi você e nem o seu pai e sempre irei agradecer por isso.

Mamãe beijou minha cabeça e saiu silenciosamente do quarto. Encostei minha cabeça no travesseiro e fiquei pensativa.

Viva.

Eu estava viva.

Contra tudo e contra todos, eu estava viva.

Eu ainda não tinha certeza se Deus realmente existia, mas sabia que minha mãe estava certa. Eu tinha que viver. Eu queria viver. Eu gostava de viver. Era a minha resposta para a Morte.

Olha aqui, Dona Morte? Tá vendo? To aqui! To viva! Você tentou e não conseguiu! Estou viva e vou viver muito ainda! Pode chorar aí no cantinho, minha senhora! Toma que é de graça!

Eu. Estou. Viva.

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