'Há sempre alguma loucura no amor. Mas também há alguma razão na loucura' – Friedrich Nietzsche
1.
Malu cantarolava enquanto dirigia seu fusca e batia a mão no volante acompanhando o ritmo da música. Após seis meses sem emprego de carteira assinada e só fazendo freelas, a fotógrafa conseguiu uma vaga para trabalhar no Diário Popular. Ia tirar fotos de celebridades e principalmente das subcelebs, aquelas que surgiam e desapareciam na velocidade da luz, mas o importante é que teria mais dinheiro para por em casa, porque se fosse esperar algo de sua mãe avoada, ela e sua irmã Petra, morreriam de fome.
O sinal ficou vermelho e ela parou. Segundos depois, sentiu o impacto da batida contra a traseira do velho fusca azul. Sorte que estava usando o cinto de segurança! Malu olhou para trás e viu que fora atingida por um carro do ano. Abriu a porta e saiu furiosa e marchando, abrindo de supetão a porta do causador do acidente.
- Qual é, hein?! Você ta cego?! Tá precisando de óculos?!
- A culpa é sua que parou essa banheira na minha frente! – retrucou o homem, saindo do carro. – Isso não é um carro, isso é uma peça de museu! – apontou para o fusca.
Malu ficou mais indignada. Como aquele sujeito se atrevia a falar assim do seu velho fusquinha de guerra? E ela bem que tinha reconhecido o autor da batida: André de Queiroz, conhecido no mundinho dos famosos como filho de Dom, um poderoso e influente empresário, dono de uma emissora de TV e claro, André fora catapultado a galã de novelas.
- Escuta aqui, o meu fusquinha é velho, mas é meu! – ela bateu o dedo indicador no peito. - Fui eu que comprei com o suor do meu rosto e não porque o papaizinho me deu! – debochou.
- Não me interessa, quero saber quem vai pagar o meu prejuízo! – André tirou o óculos escuro e Malu pode ver que seus olhos eram bem mais azuis do que na TV.
- Como é que é?! Você bate no meu carro e eu que tenho que pagar?! Que folga é essa?!
André olhou para Malu de alto a baixo, o que a irritou sobremaneira. André achou que a moça de longos cabelos castanhos seria mais bonita caso se maquiasse e emagrecesse uns dez quilos. Estava acostumado a namorar mulheres deslumbrantes e que causavam inveja em seus amigos e Malu estava longe de se encaixar nesse perfil.
- Eu acho que você não sabe com quem está falando. – ele a encarou.
- Eu acho que eu sei. – ela empinou o queixo.
Malu e André trocaram olhares hostis e iam começar uma nova rodada de discussão quando foram interrompidos pelo guarda.
- Ei! Vocês dois estão atrapalhando o trânsito! Vão causar um engarrafamento! Dá pra se mexer, seus dois irresponsáveis?!
André ficou furioso e apontou o dedo em riste para o guarda.
- Olha como esse guardinha de creche fala comigo!
- Rapaz, modere o tom, você não pode falar assim com uma autoridade!
- Eu falo do jeito que eu quiser! – André gritou.
- Saia daqui agora com essa menina ou eu prendo os dois!
- Peraí, o que eu tenho a ver com o pití desse cara?! – perguntou a surpresa Malu.
A discussão se estendeu mais do que deveria e logo depois Malu se viu dentro da cela junto com André, que estava emburrado e encostado na parede. Malu bateu com os dedos na grade e olhou irritada para o ator.
- Se você não tivesse tido um ataque de estrelismo, a gente não estava nessa! É tudo culpa sua!
- Culpa minha?! Você ouviu o jeito que o guarda falou?!
- E você piorou ainda mais a situação! A gente deu é sorte dessa delegacia ser nova e não estarmos numa cela cheio de gente com PhD em bandidagem! E você seria o primeiro a rodar nas mãos deles!
- Bem, pra quem já perdeu o relógio comprado em Paris, nada pode ficar pior, né? – ele mostrou o braço esquerdo.
Malu deu uma risada debochada.
- Mas você é muito playboyzinho mesmo, hein? Eu to preocupada como vou arrumar dinheiro pra sair dessa! Ah não, já sei! – ela estalou os dedos.
- Vai usar esse seu... corpinho mais cheinho pra sair dessa? – ele ironizou.
- Não, vou usar o meu punho pra acertar essa sua cara! – ela revidou. – Depois que eu der um jeito em você, vai ter que fazer uma cirurgia plástica e pelo visto, ta precisando!
André passou a mão pelo cabelo castanho, o qual ele precisava cortar para um novo personagem.
- Quem ta pegando não ta reclamando. – gabou-se e Malu revirou os olhos. – Da última vez que tirei fotos mais sensuais para uma revista, virei o assunto do momento na internet.
Malu bateu palmas debochadamente e André estreitou os olhos, irritado.
- Então o galãzinho tem grana o suficiente para pagar a minha fiança, afinal foi você o causador do acidente.
André coçou a barba rala.
- O carro estava sem freio. – justificou. – E é novo. Quase. Eu ia comprar uma Ferrari, mas circular no Rio com uma máquina dessas é perda de tempo né?
- Não sei, filhinho de papai, eu tenho preocupações maiores na vida, que é de pagar os meus boletos em dia.
- Você é sempre assim desagradável? – ele colocou a mão no queixo.
- Você é sempre assim babaca? – ela franziu a testa.
André ia retrucar, mas viu seu amigo, Tony, se aproximando da cela.
- Ah! Até que enfim! Pensei que ia passar o dia todo aqui! – ele desencostou da parede e se aproximou das grades.
- O advogado já ta cuidando da sua liberação, mas teu pai não ficou nada feliz de saber que você se meteu numa briga de trânsito. – disse Tony, que olhou rapidamente para Malu.
- E quanto é a fiança? – quis saber André.
- Cem reais. – informou Tony.
André se virou para Malu.
- Aí! Dá pra você pagar!
- Ah é, vou fazer como a galinha dos ovos de ouro, vou sentar aqui e pôr cem reais magicamente! – ironizou Malu.
André bufou, revirou os olhos, mas cedeu, balançando a cabeça.
- Tony, agiliza a liberação da moça também, por favor.

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