Capítulo Único
― Meu caro, todos nós temos uma coisa que não podemos contar.
Foi assim que ela respondeu quando ele lhe perguntou se ela já fizera, algum dia, segredo de algo.
Vinte anos de casamento e era isso. Ela tinha um segredo. E ele pensando que não havia segredos entre os dois. Brigas, discussões, tristezas, decepções e até uma certa melancolia, tudo bem. Mas um segredo? Ele bem que tentou extrair-lhe o que estava escondido. Qual!
― Se é segredo, não pode ser contado.
Ela parecia se divertir com aquilo, mais ainda com a insistência dele.
― Sou teu marido! Conta!
― Por isso mesmo que não conto.
E ela realmente achava graça. Ele não. Queria saber qual era o segredo. Seria um amante? Ele já tivera uma amante, uma menina de uns vinte e poucos anos que ele visitava três dias na semana no Grajaú. A esposa descobriu e saiu de casa. Para ela voltar, teve que terminar o caso com a amante. Não que fosse uma coisa importante, porque nem fora. Só um casinho para reafirmar sua masculinidade. Para provar a si mesmo que ele era um homem capaz de satisfazer uma mulher, qualquer que fosse ela. Só que fazia muito tempo e não era segredo pra ninguém.
Ela tinha que contar, ele insistia. O que seria? Dúvidas, uma origem desconhecida, alguma coisa reprovável no passado, um filho perdido, o que?!
Só serviu para irritá-la. Antes era divertido, agora tinha se tornado chato e inconveniente. O marido insistia em algo como se fosse algo crucial. E daí que ela tinha algum segredo? Todos têm. Ninguém nunca conta tudo pra ninguém. Sempre existe algo lá no fundo que guardamos somente para nós mesmos.
Devia ser um amante, devia, ele remoia. Claro que ela já não estava na flor da juventude, já não tinha aquele corpo violão, os seios estavam um pouco caídos, a silhueta arredondara e olhar trazia as marcas do tempo. No entanto, ainda era uma mulher jeitosa e não estava caindo aos pedaços. Era uma mulher com traços bonitos. Ainda despertaria o interesse de algum homem. Sim, com certeza ela poderia arranjar um amante, não dizem que há sempre um chinelo velho para um pé cansado? Pra essas coisas sempre aparecia alguém, nem precisava procurar muito.
Poxa, ela poderia lhe contar. Ele ficaria chateado, claro, mas como pulara a cerca também, ficaria o dito pelo não dito e pronto. Talvez ele desse uns tapas no dito cujo, mas seria só para não ficar por baixo. Uma questão de orgulho. Umas porradas, uns gritos, uma discussão e acabou-se. Não iria destruir um casamento de anos por uma aventura. E era até bom, porque desde que ele a traíra, era visto como o mal exemplo da casa. Sem moral. Ela era a vítima e ele o culpado. Ele saíra da linha e ela, uma santa, ainda o perdoara e não acabara com a estrutura familiar. Era ele quem não sabia se controlar. Era ele que não respeitava os laços sagrados de um matrimônio. Se ela tivesse um amante, pelo menos as coisas ficariam equilibradas. Nesse ponto, os dois seriam iguais. Ninguém mais poderia criticar ou olhar torto.
O que ele não suportava era o silêncio. O segredo. Pensou em segui-la quando saísse, sorrateiramente, porém desistiu, porque queria ouvir a declaração da boca dela. Ela que tinha que contar, timtim por timtim. Era obrigação dela, afinal de contas. Ela fazia ou não parte daquele casamento?
― Não é certo você ter segredos para mim. – ele cobrava, chateado.
― Vai começar de novo?! Haja paciência!! – ela reclamava, irritada e ia fazer suas tarefas domésticas.
E ela não falava. Era tão simples, ele pensava. Era só ela abrir a boca e falar. Ele falara, poxa! Fora difícil admitir seu erro, mas ele confessara. Ela podia confessar também. Vai ver não queria manchar sua imagem ilibada diante dos filhos. Os filhos já eram adultos, moravam em suas casas com suas esposas e viviam a própria vida. Eles poderiam até ficar chocados num primeiro momento, mas não seria nada que os deixasse realmente traumatizados. E caramba, todo mundo erra! Ela não era livre de erros.
O segredo. Era só isso que ele queria. Queria descobrir o segredo. Mas ela não contava.
Ele foi se irritando, se magoando, queixando-se, pensava naquilo dia e noite. Qual o segredo que a sua esposa escondia? Qual o segredo que morava dentro do coração de uma mulher? Mulheres eram como grandes baús de onde tudo poderia sair e nunca se descobria totalmente o que havia lá dentro. Mulheres eram um grande segredo em si mesmas. Descobri-las, desvendá-las, desnudá-las nunca foi e nunca seria uma tarefa fácil.
Numa noite após o jantar, ela estava lavando as louças e ele a ajudava a secar. Terminaram a tarefa e enquanto ela varria a cozinha tranquilamente, ele sentou na cadeira e ficou observando o ar sereno da esposa e o seu sorriso secreto, no cantinho da boca. Como ela poderia ficar tão calma? Ele se remexeu na cadeira.
― Conta. – ordenou.
― O quê? – ela parou de varrer e o olhou.
― O segredo.
Ela reclamou que ele estava ficando muito velho e chato. Revirou os olhos, aborrecida e disse que seria mais fácil criar uma criança do que aturar um marido aquela altura da vida. Bufou e voltou a varrer a cozinha.
Ele pegou a maior faca do faqueiro, ergueu-se, foi em direção à mulher, segurou-a com força, torcendo o seu braço e com ela de costas para ele, colocou a faca contra o pescoço dela.
― Conta!!!
― Meu Deus, o que é isso, enlouqueceu?!?! – ela gritou, verdadeiramente apavorada e com medo.
Na delegacia, preso, sujo de sangue, ele disse ao delegado que a matou por que não soube lidar com o segredo.
E chorou, sentido.

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