5.
Karine e Lucas estavam deitados na grama do campus da faculdade no horário do intervalo. Karine olhava para o céu e pensava nos desenhos que as nuvens pudessem fazer. Depois se sentiu meio idiota, meio em um filme pretensioso, meio em um poema vazio e riu consigo mesma. Lucas a olhava diretamente.
― Você tem um sorriso lindo.
― Obrigado. – ela disse, ainda olhando para as nuvens.
― Você é muito bonita, Karine, sabe disso, né?
― Sei, eu tenho espelho em casa. – ela disse em tom brincalhão e eles riram. – O João também acha que eu sou bonita. Vive nessa de me chamar de gatinha pra lá, gatinha pra cá, daqui a pouco to ronronando e tomando banho de língua.
― Não acredito que você ainda perde seu tempo com aquele João. – disse Lucas, desgostoso.
― Ele é legal.
― Mas você não é apaixonada por ele. – afirmou Lucas.
― Já fui mais. Hoje em dia? Menos. Mas acontece. O dia-a-dia e os anos meio que matam a paixão louca. Se bem que eu acho que nunca fui ensandecida por carinha nenhum. Com o João foi o que chegou mais próximo disso. – ela bateu os ombros sem se importar muito.
Com vinte anos, Karine não se achava na obrigação de pensar em quem seria o amor da sua vida. Vivia o momento. Vivia o amor como ele se apresentava, desde que não a machucasse. João era legal, sisudo, mas carinhoso, politizado até demais para o gosto dela, mas sabia rir de coisas bobas e beijava muito bem. Tinha pegada. Pegada era algo que Karine sempre valorizara em um relacionamento.
Lucas sentou e olhou para ela. Estava tomando coragem, mas como sempre, retrocedia e não conseguia falar diretamente o que desejava. E ele desejava Karine mais do que tudo desde a adolescência.
― E se não fosse mais o João? Se pintasse outro cara? Um cara que está próximo à você há tempos e finalmente você o olhasse com outros olhos?
― Ai, Lucas, isso é tema clichê de romance barato. – ela fechou os olhos, aproveitando o vento naquele dia de mormaço.
― Essas coisas acontecem, sabia? Amigo se apaixonar por amigo.
― Porque, você tá apaixonado por um?- ela falou em tom debochado.
― Não, né? – ele torceu a boca e ela riu. – Quer dizer e se estivesse? Vamos supor, se fosse a Luísa... Ou você. Ahn? Você daria uma chance? Ficaria com um amigo?
Karine ficou calada por alguns segundos agoniando Lucas e depois abriu os olhos. Sentou e ajeitou a camisa.
― Isso pra mim é completamente impensável. Você e a Luísa eu já acharia estranho, você e eu seria no nível bizarrice máxima! – ela riu, mas ele ficou sério. – Não rola hoje, amanhã, nem nunca! Que ideia! Você anda assistindo filme de mulherzinha, hein? Cuidado que Hollywood funde a cuca! – deu tapinhas no rosto dele. – Amizade é pra sempre. É um elo de confiança que não se rompe. Amor? Amor às vezes é só uma boa trepada que um dia acaba e você não consegue olhar mais pra fuça da pessoa. – ela afirmou e olhou para o gigantesco prédio atrás deles. – Ai, cacete! Eu esqueci que tenho que ir à biblioteca para pegar um livro pra estudar pra uma prova chatíssima! A gente se vê na classe! – ela se ergueu.
― Karine! O seu nunca é nunca mesmo? – Lucas ainda quis saber.
― É nunca sim. – ela sorriu e saiu correndo apressada.
Lucas caiu deitado na grama sentindo-se como o mais frustrado dos homens.

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