Pular para o conteúdo principal

Blink - 5





 5.


Meu aniversário de quinze anos teve bolo de cenoura com calda de chocolate, brigadeiro e em sua maioria, familiares me dando os parabéns, além do pessoal do time de futebol de 5. Todos da minha família ficaram muito impressionados por eu jogar futebol, aliás, eles se impressionavam com qualquer atividade minha, era como se fosse quase que um milagre. Pessoas com deficiência, sejam elas quais forem, podem sim ter vidas saudáveis e o mais próximo que chamam de ‘normal’. Mas o que é normal? É ser o que a sociedade espera de você? É se encaixar em algum tipo de padrão? É ser como todo mundo, todos na fila do gado, em marcha para sei lá onde? Ser como todo mundo deve ser muito chato.

- Quinze anos e ganhei um computador com braile. Gostei. – disse, sorrindo. – Obrigado, pai.

- De nada, filha. – ele beijou minha cabeça e sei que estava emocionado. Papai se tornou muito emotivo após o acidente e minha mãe chegou a ficar com medo dele entrar em depressão. – Me disseram na loja que esse é o melhor. Divirta-se e juízo!

- Pode deixar. A internet jamais será a mesma depois de Bia. – gracejei e as pessoas riram.

Eu pensei seriamente que minha vida iria parar após o acidente. Eu não enxergava, o que mais poderia fazer? Era como se eu mesma tivesse limitado minha vida. Até aqui a Bia pode ir, de lá pra diante, não. Eu demorei muito tempo em autopiedade.

Eu sei que meus olhos não me guiam mais, porém meu corpo não deixou de lutar e se adaptar à nova realidade.

Mas acho que o que mais requereu força interior foi usar a bendita bengala. Ela ficou esquecida num canto do armário até que eu resolvesse dar uma chance.

- Talvez me ajude na rua. A levar menos tropicão e não esbarrar nas pessoas. – falei, mais tentando convencer a mim mesma.

- Podemos tentar. – minha mãe falou, toda esperançosa.

O bom era que minha mãe não me pressionava. Ela sabia que eu precisava de um tempo para absorver, digerir as coisas e aí agir. Eu me fazia de forte, mas muitas vezes queria mesmo era chorar.

Foi estranho andar de bengala. Era o meu atestado final. Eu pensei: não tem mais retorno, é cega pra sempre. E eu tinha que aceitar isso. Nem mesmo um borrão surgia nas minhas vistas. Era como se eu estivesse numa noite eterna.

Em um dos meus ‘treinamentos de bengala de cego’, que era como eu chamava, fui parar na rua, sabe-se lá como. O portão estava aberto e fui me guiando pelas batidas da bengala no chão. Foi aí que então que senti um esbarrão, caí no chão e senti uma respiração quente no meu rosto. Era um cachorro. E também pude ouvir uma freada brusca de carro.

- Banguela, seu doido! – ouvi uma voz masculina. – Ei, garota, você está bem? Está cega, não viu o carro? Ainda bem que o Banguela correu e te derrubou antes que o carro te pegasse!

- Moça, você está bem? – um homem me ajudou a me erguer. – Eu não te vi, foi muito rápido!

- Estou... estou bem... – gaguejei.

- Bia! – escutei a voz da minha mãe e ela me segurou, atestando que estava tudo no devido lugar. – Bia, como você saiu assim? Você não está acostumada a usar a bengala!

Silêncio. Finalmente os que me ajudaram perceberam que eu sou realmente uma deficiente visual.

- Ah... nossa... – o homem quase gaguejou. – Sinto muito. Ela apareceu quase na frente do carro, só deu tempo de frear. Não sabia que ela era...

- Cega. – completei. – Eu sou cega. Faz quase um ano já. Pensei até em fazer um bolo. – ironizei.

- Bia... – minha mãe me repreendeu. – Está tudo bem, obrigado.

Ouço minha mãe e o estranho se despedirem e o carro dele ir embora.

- Ah, desculpa aí, garota. – ouço o rapaz falar. – Não sabia que você era cega de verdade. Pô, o Banguela é tipo um herói! –ele comemorou. – Grande, Bangue! – festejou e o cachorro latiu. – Aí, porque você não compra um cão guia? Muito melhor do que bengala. Eu vi na reportagem e eles são bem legais.

- O seu nome qual é? – perguntei, porque estava achando inacreditável esse cara falar comigo como se fôssemos velhos conhecidos.

- Samuca. E o seu é Bia. E esse aqui é o Banguela. É um labrador preto. Cumprimenta a garota, Banguela! – ele ordenou e o cão lambeu a minha mão. – O Banguela é muito educado. – ele disse, todo orgulhoso.

- Não é o nome daquele dragão daquele desenho? – indaguei.

- É! Eu não podia ter um dragão, então me deram o grande Bangue! – ele riu como se fosse uma piada interna.

- Realmente, não ter um dragão deve ser muito chato... – ironizei.

- Não é? – ele concordou. – Dragões são muito legais. Só não são melhores do que dinossauros. Aí você gosta de dinossauros?

- Ahn... Eu achei legal aquele filme dos anos 90... – estava achando surreal essa conversa, quando foi que dinossauros viraram o tema principal? - Quantos anos você tem?

- Quinze e meio. Quase dezesseis. Faltam só alguns meses. Aí, no sábado, eu e meus amigos vamos fazer uma apresentação para as crianças com os dinossauros lá no Centro de Diversão e Lazer do bairro, apareçam lá pra ver! Vai ser show!

- Ahn... Eu não posso enxergar. – apontei para os meus olhos.

- Ué, mas pode ouvir. E pode tocar nas peças. Não tem tempo ruim. E nem precisa pagar nada, é de graça! – escutamos uma voz feminina o chamando. – É a minha mãe, certeza que ela vai querer que eu arrume o quarto, ela não entende que eu me entendo no meu desarrumado. – queixou-se. – A gente se vê! Não deixem de ir ver os dinossauros no Centro!

- Iremos sim! – minha mãe exclamou, toda empolgada. – Parece que você fez um novo amigo.

- Bem, ele fala por nós dois e aparentemente tem fixação em dragões e dinossauros.

- Achei ele legal também. – disse minha mãe sem perceber a minha ironia.

No meu quarto, deitada na minha cama, fico pensando no quase acidente. Seria o segundo em menos de um ano. Quase um recorde. Aí surgiu um cachorro com nome de dragão de desenho e me salvou de um atropelamento, que com certeza complicaria ainda mais o meu dia a dia.

Na minha mente, ouço a voz da minha mãe: Deus age em pequenas e inesperadas coisas.

Será que Deus realmente voltou a olhar pra mim ou Ele sempre esteve lá? Ou foi só uma coincidência? A ciência explicaria?

Será que minha falta de visão era mais ampla do que eu imaginava ou só estou cansada?

Hum.

Sei lá.

Eu só sei que no sábado vou querer ir à apresentação de dinossauros para as crianças e quem sabe ter um cão guia para me mostrar o caminho que não consigo mais ver. Talvez eu até dê um nome de dragão à ele.

Talvez.


FIM

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Eu.com - 4

  4. Fora só por um minuto. Logo, Karine acordou com dor de cabeça. Não havia ninguém em casa. Era assim que Karine se sentia. Solitária e abandonada. Correu para o banheiro e tentou vomitar em vão. Decidiu tomar um bom banho quente, trocou de roupa e deitou-se na cama. Àquela hora estaria na internet conversando com amigos ou vendo alguma coisa inútil em páginas de redes sociais ao invés de estar estudando. Agora nem estudo ela tinha. Não até o próximo semestre, que era quando voltaria às aulas na nova faculdade. Fora uma sorte conseguir uma vaga. Ficou deitada na cama olhando para o teto até receber uma mensagem de Luísa. Karine havia trocado até o número de seu celular por não aguentar mais tanto assédio, mas informara o novo número para aquela que considerava sua melhor amiga. Mas estava começando a descobrir que amigos não existiam.  Karine hesitou em atender a chamada, mas o fez. ― Oi. – disse secamente. ― Ka, eu sei que você está passando por um grande estresse, mas ten...

Eu.com - 2

  2. Todas as mensagens de ódio recebidas e lidas pelas redes sociais ainda mexiam com ela. Teve que parar de lê-las para não destruir ainda mais o seu emocional. Teve vezes que apenas chorava. ― Vagabunda... – ela falou, mostrando as mensagens para a mãe. – Sou vadia, cadela, prostituta... Eu não sou isso, mãe! – Karine exclamou, desesperada. – A senhora está do meu lado, né? ― Claro que estou, Ka! – a mãe a abraçou. Se pudesse, colocaria Karine numa bolha onde ninguém pudesse machucá-la, mas infelizmente era impossível. – Sua mãe está aqui. É melhor você não ler mais essas coisas... ― É, mas se você não tivesse enviado as fotos pro seu namorado... – Luís disse, apoiado no batente da porta. ― Luís, ela é sua irmã! – repreendeu Dona Branca. ― Por isso mesmo! Não tinha nada que mandar nudes pro cara pela internet! Aliás, nem fora dela! Fiquei com a cara arrastando no chão quando meus amigos me mostraram! Briguei até com eles por sua causa, Karine! Está lá, estampado, naquela maldita...