4.
Tive que mudar de escola assim que voltei a estudar. Meus pais descobriram que minha escola não tinha o mínimo de suporte para alguém com deficiência visual e nas aulas, ou era tratada como um bebê de colo incapaz de fazer qualquer coisa ou era deixada de lado especialmente nas atividades esportivas. As pessoas simplesmente não sabiam como lidar comigo.
Eu completei meus quinze anos em uma escola nova e que sabia como lidar com um deficiente visual sem tratar como se fosse algo de outro planeta.
- Até porque você não tem que ficar excluída só por causa da sua deficiência. – minha mãe alegou, me ajudando a amarrar os tênis. Eu conseguia me vestir mas sempre empacava com os tênis. Nunca amarrava direito, sei lá porque. – Não vivem falando de inclusão na TV, nos jornais, na internet? Então. Você pode ser uma boa aluna sim, interagir com os coleguinhas sim e pronto. Nada de ficar em casa. Escola é pra isso, é para aprender. E você não vai conseguir ser uma astronauta se não estudar.
- Não quero mais ser astronauta. – eu disse, baixando a cabeça. – Nem iria poder ver a lua mesmo... – dou de ombros.
- Bem, então pode ser outra coisa. Você pode ser tudo que quiser, Bia. Não permita que a deficiência apague o que você é e muito menos os seus sonhos.
- É, vou tentar. – digo, não muito animada.
Engraçado que foi nessa nova escola que conheci o futebol de 5. Nunca tinha ouvido falar, mas descobri que era uma atividade adaptada para cegos. Eu sempre gostei de assistir partidas de futebol com meu pai (mais uma tradição que deixou de existir depois do acidente) mas nunca praticara. De repente me vi correndo atrás de uma bola de guizo louca para fazer um gol. No começo achei estranha a torcida silenciosa (para não atrapalhar os atletas) mas era legal quando ouvia o familiar grito de gol. E todos vibravam como no futebol ‘normal’. Formamos até um time feminino, o que me ajudou também a fazer novas amizades, já que eu realmente tinha me fechado para o mundo e só fui me dar conta disso no retorno ao colégio. Eu afastava propositalmente as pessoas.
- Isso é normal, Bia. A Duda até largou o namorado depois que ficou sem visão. – me contou a minha mais nova amiga, Gabriela. – Ela achava que ele tinha pena dela. Tanto fez, que terminou o namoro. Ela sofreu pacas quando descobriu que ele estava com outra, mas é aquilo né, a fila anda.
- Eu nunca tive um namorado. E acho que agora as chances diminuíram exponencialmente. – eu falei, bem humorada. – Também, nesses meses eu nem pensava em amigos, namorados, nada. Eu só pensava na minha visão. Eu só queria ela de volta. Agora estou voltando a tentar me concentrar em outras coisas.
- Sabe do que sinto falta? De ver meus pais e meu gato. – ela confessou. – Não é louco? Eu queria ver eles de novo, nem que fosse só uma vezinha. Uma vezinha só, Deus, eu pedia, mas nunca fui atendida.
- É porque Deus é uma alegoria criada para enganar as pessoas mais influenciáveis. – eu falo, secamente.
- Hum... Será? Acho que não. Eu sempre acreditei em Deus, mesmo depois que perdi toda a visão. Eu fiquei um pouco revoltada, é verdade, mas ainda acho que Ele existe. Ou talvez eu seja só bastante influenciável. – ironizou.
- Desculpe, não quero ofender a sua crença. Cada um acredita no que pode e se agarra nisso. Não estou te criticando. Eu só... só acho que se Deus existir, Ele nem lembra mais de mim.
- Quem sabe lembre, você que não consegue mais sentir. – Gabriela sugeriu e eu me calei.

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